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A verdade, o fundo do poço, o Juízo Final e as binas


Não tenho a menor dúvida de que estamos vivendo o Juízo Final. No sentido de que tudo o que chega ao apogeu, declina, como declinaram os povos egípcios, gregos, romanos, todas as formas de governo, os ideais, os costumes, os casamentos, as sociedades, a moda, pois que ''tudo é passageiro, menos o motorista e o motorneiro''...

Não acredito que os túmulos se abrirão e que deles sairão cadáveres putrefatos, esperando ansiosos pelo julgamento de suas ações. O sentido é figurado. O que estamos vivendo é a decadência absoluta, a putrefação generalizada. O final de um ciclo como o the end escrito na tela de um filme que surge depois que o diretor, segundo o seu próprio feeling, ordena à equipe: ''Corta!!!''

Tá na hora de cortar. Começar de novo, tomar juízo, afinal...

Vive-se a guerra pela guerra, a tortura pela tortura, a banalização da morte, do sexo, ambos expostos como carnes num gancho de açougue, sem se entender bem em nome de quê, de quem. Vive-se uma mentira que de repetição em repetição vai-se tornando verdade.

Ninguém mais sabe o que é a verdade. Verdade virou sinônimo de manipulação. Mas ela está lá, como dizia Diógenes, no fundo do poço. E o Juízo Final (penso que seja isso), a trará à tona, aos poucos, pela pontinha do iceberg. É com a decadência que o mundo se refaz e estamos visivelmente vivendo esse momento do refazer em relação à lei do eterno retorno, que traz consigo uma espécie de vassoura pra varrer o lixo acumulado debaixo de sucessivos tapetes.

Vivemos a falência cultural de todas as formas de cultura que fazem dessa falência uma nova forma cultural, sem cara nem coração. Até o tempo, cansado do déjà vu atual, mudou seus padrões estabelecidos, segundo Schuman, físico alemão que constatou, em 1952, que ''a Terra é cercada por um campo eletromagnético que possui uma ressonância responsável por seu equilíbrio, fazendo com que, durante milênios, o seu 'coração' batesse numa certa freqüência. A partir dos anos 80, devido ao desequilíbrio ecológico, essa freqüência mudou e o coração da Terra disparou. Diante da aceleração geral, a jornada de 24 horas foi reduzida a 16!''

Por isso, quando se diz entre a sobremesa, de pé, em frente à geladeira, e o cigarro aceso, às pressas, no hall do elevador: ''mas não dá tempo!'' é porque não dá mesmo!

Era infinito o intervalo que existia entre as duas férias escolares. Quando deixávamos o Hotel Quitandinha, onde nos hospedávamos, em Petrópolis, imediatamente o via novamente pela janela do carro de papai como uma utopia, uma ilha novamente inalcançável e distante.

Hoje meu neto de 4 anos pergunta:

- Mas já é férias de novo?

As crianças, hoje em dia, nascem de olhos abertos e pré- informatizadas, pois não há mais tempo a perder...

Mas perder mais o que, se só perdemos o tempo todo? Perdemos a ética, perdemos a liberdade, perdemos os conceitos de bem e de mal. Vivemos na época da relativização, da empulhação, perdemos a legitimidade.

Quando vi Laranja mecânica, de Stanley Kubrick, achei, na época, que não tinha entendido. Por que tanta violência gratuita? Por que os protagonistas do filme saem chutando a tudo e a todos sem razão, cantando Singing in the rain? O que o diretor quis dizer com aquele tipo de comportamento? Não imaginava que iria viver isso hoje no dia-a-dia, com a banalização da violência liberada de dentro de cada indivíduo, que passou a exercê-la, a seu bel-prazer, ''cantando na chuva''... E quem tá na chuva, é pra se molhar...

Então, com a graça de Deus, ganhamos a tecnologia que tira uma carta da manga, como o DNA, por exemplo, ou o cerne da verdade, e invalida qualquer discussão. Mesmo assim há quem tente negá-la abafando o caso. Abafando, abafando... (Acho que a Terra ficou mais quente por causa de tantos casos abafados durante esses três milênios...)

Mas o que é abafado hoje em dia explode em verdade através de informação por gravações, binas, e-mails, TVs, bips, prontos a delatar bombas nucleares, e outras técnicas ainda mais sofisticadas contribuindo pro Juízo Final. Que já estaria vigendo, não faltasse ainda a peça fundamental da mudança que seria a tomada de consciência de cada um, alavanca imprescindível para que a verdade emerja, finalmente, do fundo do poço.


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[14/MAI/2004]


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