Ganhei o livro do Lula Vieira sobre antigos comerciais brasileiros e fui direto procurar o do Rhum Creosotado, remédio que pertencia à família da minha mãe. Era anunciado com um versinho de uma simplicidade e síntese extremas (feito pelo meu bisavô, Ernesto de Souza, e não por Bastos Tigre, como pensam alguns). Várias gerações o decoraram enquanto viajavam de bonde. Quem é que, tendo passado dos 50, não se lembra dele?
''Veja, ilustre passageiro
O belo tipo faceiro
Que o senhor tem a seu lado.
E, entretanto, acredite,
Quase morreu de bronquite,
Salvou-o o Rhum
Chreosotado!''
O anúncio original consistia apenas em um cartaz com o versinho, sem figuras, discretamente pregado nas paredes do bonde que eu pegava, com a babá, pra ir de Botafogo ao Bar 20. Adorava o bonde. O passeio começava por ele. Babá conversava com todo mundo. Eu ficava ajoelhada no banco de madeira, de costas, falando com minha amiga imaginária e apreciando, orgulhosa, o anúncio do Rhum. Observava também os homens que viajavam no estribo ou que desciam do bonde andando, fazendo um tipo passo de tango, cruzando as pernas pra saltar numa elegância esperta, de malandro.
Também gostava de dormir no colo da babá, acordando diante do Bar 20, ao lado do Cinema Astória, e de mergulhar na piscina do Club, recebendo aulas de natação com o professor Carlos Reis. Ficava horas nos braços daquele senhor bonito, de bigodes grisalhos, sentindo um imenso bem-estar. Talvez fosse uma paixão enrustida, de Electra, já que ele se parecia com meu pai, ou eu o imaginava assim...
Mas, voltando ao Rhum Creosotado, às vezes saíam discussões intermináveis quanto às decisões a se tomar na empresa. Minha tia se retirava, invariavelmente de olhos vermelhos da reunião, fungando, com um lenço na mão. O Rhum pertencia à família de mamãe, mas eram os maridos das herdeiras que tomavam conta, sobretudo meu pai, que apesar de ocupadíssimo com outros trabalhos, era o que mais tinha ''tino pros negócios''.
Depois veio o primeiro anúncio do produto com ilustração. Era a imagem de um passageiro olhando uma louraça saudabilíssima, sentada ao seu lado, com o versinho escrito embaixo. Metade da família chiou, como sempre. Eu gostava do desenho, feito não sei por quem, em estilo art-déco. Não entendi por que o Lula Vieira, no seu agradável livro sobre os anúncios da época, colocou um do Rhum que eu jamais tinha visto, onde uma mulher chatíssima, de maiô de duas peças, sorri, feito Doris Day. Claro que aí o versinho perde o sentido, pois a ''Doris Day''do anúncio não está ao lado de passageiro nenhum...
A família da minha mãe também era dona de outro remédio: o Trinós, menos famoso, cujo comercial de rádio era uma musiquinha cujos compositores foram lá em casa apresentar ao papai. Tocaram violão, já que ainda não era comum gravador:
''Se tens digestão pesada
Com ânsias e dor atroz,
Tome trinós, camarada,
E deixe o caso entre nós!''
A musiquinha foi aprovada por papai. Outra briga na família. Titia tomava água com açúcar e dava bombadas na asma com sua inseparável bombinha. Mamãe tinha dores de cabeça e tomava cafiaspirina.
Uma alegria, além do bonde, era ir à Rádio Nacional assistir ao vivo e a cores o programa de Alvarenga e Ranchinho, patrocinado pelo Rhum.
- Ê, cumpadi ..A gente pega na conversa e esquece de cantar...
Mas um dia eles vieram me entrevistar na platéia, talvez perguntar o meu nome, e eu emburrei e serrei os lábios numa espécie de malcriação. Vovó ficou furiosa comigo. Então me virei de costas pros artistas, me ajoelhando na cadeira, como fazia no bonde, e só os reencontrei nas festas de aniversário, minhas e de minha irmã.
Além deles,vinha Blecaute, que fazia ao mesmo tempo a felicidade das crianças e das empregadas, que vinham todas assistir e paquerar os artistas, disfarçadamente, deixando pra trás a cozinha.
Maravilhosas eram aquelas festas, onde a família fazia as pazes até a próxima reunião do Rhum Creosotado, a vida dos pulmões (embora titia estivesse sempre prestes a sacar sua bombinha de asma da bolsa...).