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A deliciosa casa do tio Carlinhos


Fui convidada por dois amigos para jantar no restaurante do Troisgros. O novo Troisgros agora se chama Olimpe, mas continua situado na ex-casa do meu tio Carlinhos. Na época em que o Rio de Janeiro tinha verdadeiras chácaras, em vez de casas, ela era chamada de ''casinha de boneca''. Eu, naturalmente, adorava a casa do meu tio. Achava-a linda. Era tudo pequenino, delicado e sobretudo cor-de-rosa, que era a minha cor preferida. Tinha até um pequeno jardim de inverno com um lago de pedras cheio de peixinhos vermelhos. Jantei ontem ali, na sala do meu tio, e ainda via os peixinhos ziguezagueando no lago, enquanto eu tomava champagne e degustava um menu de sonhos, o que me aproximava ainda mais da infância, quando brincava de bonecas, no tapete daquela sala, fazendo-as provar comidinhas imaginárias, mas nunca tão fantásticas como o frozen gazpacho, temperado com queijo de cabra e papoula, que me serviram como entrada. Que me perdoem as bonecas, mas com toda a capacidade da minha fantasia, e o amor que tinha por elas, jamais minha imaginação e competência chegariam a tanto.

Fui visitar o antigo quarto dos meus tios, (agora tranformado em cozinha), onde minha tia costurava fantasias pro marido brincar carnaval, período em que ela ficava em casa cuidando da minha prima, de mim e da minha irmã. Meu tio voltava na manhã do dia seguinte, seríssimo e sem querer dar bandeira, esforçando-se para nos cumprimentar naturalmente, como se fosse normal estar vestido de pierrot debaixo do sol a pino, em plena Rua Custódio Serrão. Ia direto para a cama, de onde não saía até a noite, quando minha tia chamava-o para o novo baile. Uma vez ela esqueceu de chamá-lo e ele perdeu a última terça-feira de Carnaval. Desesperado, fantasia na mão, ligou para o meu pai, que foi acalmá-lo com uma partida de pôquer, no canto dessa sala onde agora eu como cherne com banana caramelada e molho de passas. Será tão bom assim, ou já ando misturando a infância com o tempo atual?

Dei uma olhada no quarto da minha prima (que também virou sala). É claro que a ex-casinha de bonecas ficou imensa agora, branca, alta e de um extremo bom gosto. Mas me lembrei da colcha de retalhos da cama da minha prima, feita por titia, e da tortura a que eu, minha irmã e minha prima éramos submetidas devido a qualquer dor de garganta que por acaso pudéssemos demonstrar. Minha tia dava-nos uma espécie de ''gravata'' no pescoço, imobilizando-nos completamente enquanto pincelava a nossa garganta com azul de metileno. Era prendada até nisso essa nossa tia. A única da família que sabia lavar, passar, cozinhar, costurar e ''pincelar''. Nós, crianças, ficávamos em fila, chorando e ouvindo os uivos do ''pincelado'' de boca aberta, enquanto esperávamos a vez. Uma tortura que dava direito a platéia, com cozinheiras e babás, sádicas, apreciando a prática. Para esquecê-la, só mesmo o filé de vitela com alcachofra, soufflé de inhame e molho de açaí. Se precisasse ser ''pincelada'' de novo para merecê-lo, juro que entraria na fila de bom grado.

Estive ainda no escritório do meu tio, onde, na época, uma estranha urna repousava num canto. Eram as cinzas do avô de titia, que esperavam ali o seu destino, algo assim como Belo Horizonte, ou algum lugar em Minas Gerais. Não sei se lá chegou inteiro o avô da minha tia, porque, nós, crianças, sem ter a mínima noção do que fosse aquilo, e vendo naquela estranha caixa um objeto extremamente misterioso, o qual não se podia tocar, é claro que um dia não resistimos, abrimos a tampa de madeira da caixa, olhamos aquela coisa esquisita lá dentro e sopramos todo o avô da minha tia no tapete. Depois tivemos um acesso de riso nervoso. A empregada deve tê-lo varrido no dia seguinte, enquanto Deus, misericordioso, nos perdoava, orientando o espírito do avô a seguir o seu caminho. Acredito em sua misericórdia, se não, não estaria agora comendo essa sobremesa de chocolate com aparência de jóia delicada, envolta em calda brilhante. Quem sabe é o avô da minha tia quem, de lá do outro mundo, dita essas receitas que saboreio agora, tantas décadas depois? Divago tomando um café acompanhado das melhores trufas de chocolate que já comi, desistindo inteiramente de distinguir realidade de fantasia, ou casa do Tio Carlinhos do Restaurante do Troisgros.


[13/FEV/2004]


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