Minha amiga liga pra nos encontrarmos na porta da Laura Alvim. Veríamos um filme francês num daqueles cineminhas gostosos, em frente ao mar. Saí de Botafogo 15 minutos antes, pois no domingo não tem nenhum tráfego por aqui, pra compensar o inferno diário que é a Mena Barreto em dia de semana. Achei que em cinco minutos estaria lá. Era só atravessar o túnel.
O trânsito começou a enguiçar na Siqueira Campos. Peguei a Av. Atlântica e depois de meia hora tive que fazer a volta no Méridien porque, no domingo, a praia é mão única, unicamente pro lado que eu não quero ir. Faço o retorno e enguiço de novo na Barata Ribeiro.
Resolvo pegar a Lagoa virando na Bolívar pra me livrar do transtorno. Todo mundo teve a mesma idéia que eu. A Lagoa não anda. Minha amiga me espera na porta do Laura pra ver o filme francês. Esqueci a agenda. Não sei de cor o número do seu celular.
Chego finalmente no cinema, quase uma hora depois. Ninguém na porta. Nem sinal de amiga ou de estacionamento por ali. Entro na General Osório e me deparo com a Feira Hippie. Dou a volta no quarteirão e vejo uma vaga milagrosa. O homem do Vaga Certa me faz um sinal esquisito. Quando me aproximo, ele me diz, entredentes, pra eu dar um tempo, porque tem uns caras assaltando na rua. Pergunto se estão armados e ele me responde:
- E precisa, madame?
Paro na vaga, que afinal não é tão certa assim, e espero o homem me liberar pra sair. Vou até o cinema só por desencargo de consciência. Agora só na sessão das 7. O que não tem remédio, remediado está. Então sento em frente ao Hotel Sol Ipanema, tomo uma água de coco e fico sentindo a brisa do mar. No vidro detrás de um carro cheio de adesivos de caratê, leio esta pérola: ''quem lê é corno''. Uma pichação num muro afirma que ''só Jesus tira os demônio das pessoa.'' Olho a praia vazia e retorno ao Posto Nove. Anos 70. Plena ditadura militar. O namorado engajado, recém-exilado em Paris. Um policial aparece em casa e pede para eu acompanhá-lo pra depor no Dops.
- Vamos no seu carro - diz ele - pra não chamar a atenção.
Minha babá, que ainda morava comigo, diz que só passando por cima do seu cadáver. O policial tranqüiliza-a dizendo que eu voltaria logo.
Me levaram a uma sala onde o delegado me esperava por trás de uma placa onde se lia: ''Amore''. Disse que eu jamais esqueceria o seu nome. Tinha razão.
Me trancaram numa sala sozinha com uma pia. Depois de algum tempo, a porta se abre e entra um cara que fica de costas pra mim, lavando as mãos. Pra minha surpresa, ele diz que me conhece do teatro.
- Sou advogado, posso sair e entrar aqui. Você quer que eu ligue pra alguém?
Pensei que aquilo poderia ser uma armação, mas, como não tinha opção, resolvi arriscar e pedi pro ''advogado'' ligar pra minha irmã, dizer que eu estava presa e mandar que ela tirasse tudo lá de casa. ''Tudo'' eram alguns livros do Guevara, outros de Marcuse e retratos do meu namorado nas passeatas.
Mais tarde eu soube que não era armação, que ele era advogado e que ligara pra ela. Continuei ''presa'' até que o Delegado Amore abriu a porta de repente.
- Você quer sair daqui agora?
''Outra armação'', pensei, mas vamos nessa.
- Me dá uma carona até a Barra no seu fusca pra eu pegar meu carro na oficina. Depois te deixo ir.
Se meu fusca falasse, diria que eu fui dirigindo ao lado de Amore, que me ordenava:
- Avança o sinal! Avança! Você está com a polícia!
E quando o guarda nos parava ele mostrava a carteira de delegado. Quando nos liberava, olhava pra ver a minha reação. Eu sorria um sorriso de Mona Lisa. De repente ele passou o braço pelo meu ombro e perguntou:
- Como é que você pode achar graça naqueles cabeludos, sujos, baderneiros? Por que é que você não gosta de um sujeito bem vestido e apresentável feito eu?
Fiquei gelada e continuei com um sorriso de louca, a mil por hora na Avenida Niemeyer, avançando todos os sinais.
Quando chegamos na porta da tal oficina ele me disse, segurando as minhas mãos, como o xerife pra mocinha, num filme de cowboy.
- Espera só um pouquinho, meu bem, deixamos o seu carro aqui, pegamos o meu e vamos dar um passeio pela Barra, combinado?
Quando ele saltou pra pegar seu carro, engrenei uma primeira no meu fusca e saí em disparada até o Posto Nove, onde dei um mergulho pra pensar melhor. Depois liguei de um orelhão pra minha irmã:
- Liga pra Varig e diz que eu embarco hoje pra Paris, no primeiro avião.
Desliguei o telefone, passei na casa dela e, à noite, estava no aeroporto acompanhada pelos amigos e pelo fantasma de Amore, que eu achava que a qualquer momento poderia se materializar. (No pior sentido, é claro.)