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João Paulo Cuenca
O sono que o cronista nunca vai ter

 


O sono que o cronista nunca vai ter


Lá embaixo grita a noite quente. Um senhor empurra sua carroça cheia de entulho, cão amarrado no barbante. Taxistas dão voltas por quarteirões ouvindo música e o noticiário. Fitas e terços pendurados nos espelhos retrovisores balançam. Um ônibus quase vazio se arrasta pelo asfalto. Dentro dele, uma mulher chora. O trocador finge que não vê. Casais voltam quietos para casa, levemente embriagados. Um filho de bacana quer dirigir para fora da cidade, mas não conhece o caminho. Tenta voltar para casa, mas não lembra. Pára o carro no meio-fio e quer vomitar. Não consegue. Um caminhão de lixo pesa no asfalto como uma morsa de chumbo. Dentro dele, uma legião de homens de laranja pula na calçada e joga pesadas sacolas de plástico dentro do triturador na traseira do carro, como se fosse fácil. As sacolas voam pelo escuro sem emitir som até que alguns cacos se partam quando elas caem. Um homem apressado dirige de gravata, apesar da hora. Uma mulher boa de mentira o espera. Sempre tem alguém esperando. Motores e pneus zunindo pela madrugada. Nunca param. Sempre tem alguém indo para algum lugar. Ela, alheia a tudo, dorme.

Os cachorros enlouqueceram. Matam os donos ou quem der moleza. Estraçalham e mastigam a carne dos homens. Depois são mortos a pauladas, ou vão para a Suipa. Seus donos também enlouqueceram. Esfaqueiam a família. Atiram a esmo. Ou pior: atiram sem ser a esmo. Depois são mortos a pauladas ou são presos. Ou, se forem homens novos, vão para o Juizado, a Suipa das crianças. Entre nós e os cães com a boca manchada de sangue, só a qualidade dos latidos faz diferença. Os tiros ricocheteiam pelas canelas e andamos pela rua como se fosse fácil. Negamos um segundo olhar para o moleque sujo e com fome, como se fosse fácil. Votamos numa corja de ladrões e assassinos, e depois esquecemos, como se fosse fácil. Trabalhamos para eles, como se fosse fácil. No dia seguinte, damos bom dia, como vai o senhor?, como se fosse fácil. Trocamos de vida, mulher e esquecemos os filhos, como se fosse fácil. Talvez porque realmente seja fácil. Muito fácil. Ela, alheia a tudo, dorme.

Lá no Império, deram mais quatro anos à chefia da casa. Aqui a gente fica meio assim- assim, como se a seleção tivesse perdido um amistoso. O cronista não se mete em papo de branco e nem vai começar a falar sobre a capacidade mental do patrão. Quem vota no Rio de Janeiro tem mais é que enfiar o galho dentro da sacola e mudar de assunto: não pode falar mal do voto de ninguém. Muito menos chamar o povo dos outros de burro. Se o amigo achar que americano é idiota, sugiro dar uma olhada no palácio aqui no final da rua. Eu tenho quase a Rua Paissandu inteira de distância e o cheiro chega até aqui, como se fosse no meu banheiro. Ela, alheia a tudo, dorme.

Dorme abraçada a um travesseiro, em paz absoluta. Deixa sempre um pé para fora da cama. Tem o sono tranqüilo como água de lagoa. Amanhã não vai se lembrar de sonho nenhum. Espreguiça, faz um muxoxo rápido e pronto: café, torrada com queijo e um sorriso daqueles que eu gosto. Não é que ela durma e as coisas aconteçam enquanto isso. Ela dorme, simplesmente. Sem papo furado: faz de si o centro do mundo. Sem eleição americana, taxista cantando pneu, cachorro comendo gente, guerra de traficante e coisa e tal. Dorme o sono justo, o sono iluminado das crianças e das meninas lindas e felizes. O sono que o cronista nunca vai ter.

Sob a luz do computador, vejo seu corpo marcando o lençol, e penso que gostaria de entrar dentro de um sonho dela e me esconder um pouco.


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[06/NOV/2004]


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