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Perdido no supermercado

 


Perdido no supermercado


Na feira de livros organizada na praça em frente ao mercado, um policial militar folheia um volume qualquer com o fuzil pendurado às costas. Casualmente, é importante frisar. Como se fosse uma criança transportando a mochila nos ombros. Ou uma senhora levando a bolsa da feira. No canto oposto, cinco guardinhas de marrom conversam animados, alheios à escumalha. Na verdade, não é que eu estranhe ver o policial carregar um fuzil. O que estranho é achar normal ver um fuzil na praça antes do meio-dia.

Para fazer tempo antes do que não quero fazer, vou até o jornaleiro e, ao lado de aposentados e senhores com pastinhas sob o braço, leio que o exército nega ''mudança de posicionamento e de convicções'' em relação às sujeiras passadas que carrega, bem mais pegajosas do que as lembranças deixadas pelos pombos na calçada onde piso. Na capa do jornal, uma foto desbotada e triste. Acredito que o leitor, mesmo ''livre de ressentimentos'', gostaria que essa herança tenebrosa de torturas e mortes comandadas por um poder constituído pela lei tivesse ficado para trás. Mas o que pensar ao saber que o número de mortes de civis em operações policiais no ano passado foi de mil cento e cacetada - e só no Rio de Janeiro? O pior é perceber que estamos começando a nos acostumar. E não apenas com o fuzil na praça antes do meio-dia.

Absorto por estes pensamentos, e por outros tão funestos quanto, por um momento me desvio do que me levara à rua. Nesta manhã carrego o fardo de ingrata missão, para mim mais pesada do que um AR-15. Tarefa que, apesar de trivial, sempre procrastino até que um estado de calamidade se instale neste apartamento. Até que ele fique parecendo uma sucursal de Bagdá, Porto Príncipe ou do Palácio das Laranjeiras. Até que lembre o chão da praça, sujo pelos pombos. Ou a capa do jornal, manchada pela história sórdida que insiste em se acumular pelos cantos da parede - e do país.

Fato é que, deixando tamanha digressão de lado, o cronista precisa ser prático de uma vez e fazer compras. Quando moleque, ainda via graça e ia feliz, empenhadíssimo. Botava o carrinho pra zunir, roubava iogurte, escolhia biscoito colorido. Duas horas de encheção de saco garantidas para a família brasileira. Mas, nos últimos anos, as idas ao supermercado ganharam ares de tortura tailandesa. Virou programa mais chato do que bloco de advogado.

Quando já ouço os carrinhos de aço se debatendo, o celular toca. E eu, que há meses reúno motivos para jogá-lo fora, atendo ao que me parece ser o único motivo para não jogá-lo. É ela que chega de carro. Nos beijamos e entramos, sem muitas palavras. Embora não planejada, há uma divisão de tarefas clara entre o casal. Ela é especialista em ver as marcas dos produtos. É uma mulher exigente, apesar da companhia que escolheu para si. Reclama se eu escolho um azeite vagabundo, por exemplo. Já eu vejo o prazo de validade do pão de forma. Escolho a marca de requeijão e desodorante. Ela, as verduras. Eu, os biscoitos. Ela me lembra que preciso comprar papel alumínio e fio dental. Eu tenho lá minhas manias, que ela aceita bem. Só gosto de comprar pasta de dente verde. Detergente verde. E sabão verde também. Não sei explicar o porquê.

É comum vê-la sumir por trás dos corredores. Fico perdido, mas ela sempre volta, vaidosa, carregando alguma coisa na mão. Fala dos planos que tem para cozinhar. Diz que precisamos levar molho, cebolinha, ovo e palmito. E o forno elétrico, tem que comprar logo. Faz planos e segue iluminando meu caminho no supermercado - sozinho, eu sempre me perco. Calado, empurro as compras devagar e secretamente fantasio que estamos estocando mantimentos para o nosso bunker secreto, longe das notícias de jornal e das balas de fuzil. Penso nisso enquanto a vejo entre estantes escolhendo um absorvente. Não digo nada, mas naquele momento a amo com fervor religioso.

Imagino um abrigo antiaéreo, antinuclear - antiqualquerum, se vocês me permitirem a misoginia. Embalado a vácuo. Impenetrável a tiroteio, má notícia ou desagrado. Sem perseguição, curiosidade, gente xereta e mau olhado. Só eu e a dona dos olhos verdes que passeiam pelas prateleiras do supermercado. Comendo pipoca e dormindo de boca aberta - antes do final do filme, de preferência.

Terminamos nossa longa jornada e saímos carregados com mil sacolas. Esbarro num pedestre apressado e deixo caírem os ovos. Quebram-se todos. Na esquina de casa, uma família dorme na porta do banco: dois filhos, mulher e marido. A mãe fuma enquanto dá seus peitos tristes a um bebê. Pobres coitados assistem ao programa de esportes na TV pequena do boteco da esquina, discutem sobre qualquer coisa e bebem cerveja ruim. Dois caminhões fazem entregas e atravancam a rua. Uma viatura de polícia passa correndo com a sirene ligada. Buzinaço.

Aqui em casa, se eu fechar bem a janela, dá pra ouvir o barulho dos carros um pouco mais baixo.


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[23/OUT/2004]


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