O Mantra
Não parar, não pensar, nada, nada, ser apenas um punhado de recordações, lembranças desconexas, sabores, cores, cheiros. Desfiar delícias como se recitasse um mantra, deixar que cada uma das sensações vá entrando pelas narinas, pelos olhos, pela boca, pelo sexo - fluindo através desse corpo imaginário que é a memória. Um calor de pedra nas costas, os olhos fechados, o som grave das ondas que batem na praia com mansidão, o ruído metálico dos pássaros. Camarão frito, gosto de suor, maresia. O martelar distante do motor de uma traineira, algumas vozes, uma risada. Sol, muito sol. Mas também muitos crepúsculos, muitos. A areia dourada vista de um quiosque em Geribá, o brilho se esbatendo praia afora, até dar no morro sombrio, com seus cactos que parecem um exército de fantasmas. O mesmo dourado em Ipanema, numa tarde em que o mar do Arpoador é um aquário transparente com seus cardumes de pequenos peixes, mar que se esqueceu sobre a areia e formou piscinas, onde os retardatários - aqueles que realmente amam a praia - se deixaram ficar, sentados com água pela cintura. Mate, limãozinho, biscoito Globo. E ainda o mar. Um mar todo ouro, todo tremulinas, visto da ponta de Montserrat, junto à igreja mais velha da Bahia, com o sol batendo em suas paredes caiadas e fazendo arder a vista. Um gosto de pitanga, de sorvete de pitanga da Ribeira. Ou uma tarde no Douro, às margens do rio, vendo o casario antigo morro acima, a ponte de ferro, o avanço lento das barcaças. Ou ainda uma tarde no Trastevere, por entre ruelas e fontes, com um sol frio, preguiçoso, que se deita sobre as pedras, iluminando as flores nas sacadas como numa pintura. Uma livraria inglesa, um cheiro bom de papel. Uma tarde em San Marco, já quase vazia àquela hora, o sol brilhando nas cúpulas bizantinas da catedral, fazendo seus mosaicos se multiplicarem, enquanto os primeiros pontos de luz se acendem nas mesas dos cafés. Um som de Bossa Nova, um gosto forte de café e licor. Mas não só crepúsculos, também muitos nasceres de sol, muitos dias nublados - muita chuva. Um banho sob o jato de uma calha, em meio a um temporal de verão, desafiando os trovões, uma sensação de poder, de indisciplina - uma sensação de ser criança. Um filme de Woody Allen, um filme, muitos filmes, conversas, risadas. Muitas risadas. Uma roda de samba, um carnaval inteiro, uma noite de bambas no Centro Cultural Carioca. Sopa de siri, caldinho de feijão. Passeios casuais por entre livros, muitos livros, novos e velhos, a doce poeira dos sebos na ponta dos dedos. Um vatapá, uma bouillabaisse, um prato de moules com batatas fritas no Le Gorille, olhando a vista do porto velho de Saint-Tropez, um jantar à luz de velas numa noite fria de verão europeu. Paris. Um abraço à meia-noite, um Ano Novo em Copacabana. Uma carícia, uma barba cerrada, um cheiro de lavanda. Um beijo. Um milhão de beijos. Apenas um milhão de beijos depois. Sempre.
[26/JUN/2005]
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