Um leitor me pergunta afinal que lugar é esse onde vivo e que janelas são essas, as minhas, que ora dão para montanhas e lagoa, ora para apartamentos onde vivem casais felizes e infelizes, ora parecem estar quase ao rés do chão, permitindo-me observar de perto os transeuntes e os catadores de papel. Tem razão, o leitor. Que janelas são essas? Onde vivo? Pois respondo. Vivo em vários lugares e são muitas, de fato, minhas janelas, sendo múltiplas as visões que descortino.
Uma é estreita, de vidro canelado, e por ela apenas espio os telhados dos prédios que me rodeiam, com suas telhas de amianto, as caixas de cimento, os pára-raios, antenas e fios. Mas por cima desse emaranhado cinzento e triste vejo um pedaço de céu, nem sempre azul, mas sempre bem-vindo, por estreito e raro. Nesse pedaço, correm nuvens. Nesse pedaço, sopra um vento sudoeste que tem cheiro de mar. E é por isso que ele, esse pedaço sem graça, me traz toda a beleza da praia de Ipanema, das pedras do Arpoador, das Cagarras - porque nada disso é visto, e sim imaginado.
Outra janela é ampla, uma janela francesa, como diriam os ingleses. Dessas de vidro, do teto ao chão. Dá para um terraço de onde - dali, sim - posso ver o mar e as montanhas e o Cristo. Mas dessa janela, paradoxalmente, costumo observar não a natureza, mas a natureza humana, pois dali enxergo também um prédio que se me afigura como a boca de cena de um teatro, cujo cenário tenha sido dividido em pequenas caixas. Em cada uma se desenrola uma vida, uma história. E delas me alimento e a elas reinvento como se me pertencessem. Mas não é só gente que vejo dessa janela, não. Vejo também pássaros, muitos pássaros. Porque é exatamente em cima dessa minha janela que passam os bandos de biguás voando em suas formações perfeitas, em cunha, principalmente nas manhãs, indo em direção à Lagoa e vindo de algum ponto que imagino ser as Ilhas Tijucas, onde eles têm seus ninhos.
Tenho ainda uma janela triste, uma janela assassinada. A janela da minha infância, de onde por mais de quarenta anos vi se descortinar a vista da Lagoa e das montanhas e que a construção odiosa de um shoppping acaba de emparedar. Aquela beleza toda virou apenas uma lembrança, um retrato e - sim, Drummond - dói muito.
Mas de todas, há uma janela que é minha preferida - esta diante da qual estou agora. Às vezes é clara, às vezes escura, mas tem o dom de me levar aonde quero, com a rapidez do pensamento. Esta janela dá para uma paisagem que não tem fim, dá para o mundo inteiro. É a janela que quando apagada se transforma em espelho, me deixa ver meu próprio rosto: a tela do computador.