A mulher ia passando pela ponte sobre o canal quando, de repente, parou, sem qualquer motivo. Era um dia cinzento, abafado, um dia de primavera mas de céu quase plúmbeo. Não havia no ar aquela leveza tão característica dessa época no Rio, cidade onde os intervalos que separam inverno e verão são sempre marcados por um ar fino e limpo, através do qual enxergamos até as silhuetas das árvores no topo das montanhas. Naquela tarde, não. Naquela tarde, embora primavera, a atmosfera pesava, ainda sob o efeito de uma ventania matinal que vergara as palmeiras e desfolhara as árvores.
Talvez tenha sido por isso que a mulher parou. A tarde abafada a deixara sem fôlego, enquanto atravessava a pé aqueles poucos quarteirões. Parou e se recostou na amurada por um instante, ofegante. Olhou para cima e reparou que por entre as folhagens o céu cinzento escurecera ainda mais, ameaçando chuva. Depois, baixando a vista, observou as folhas que, na certa arrancadas pelo vento da manhã, flutuavam na água. Encostou-se mais à amurada, debruçou-se. E olhando para o leito do canal deu com a própria imagem lá embaixo.
Num segundo, ficou como hipnotizada. Isso já lhe acontecera antes. Quando se olhava num espelho sem querer ou via por acaso a própria imagem refletida num vidro, numa vitrine, sentia-se invadir por uma estranheza. Era o que acontecia agora. Sua projeção na água lhe dava de repente a impressão de ser alguém duplo, fragmentado.
Fechou os olhos, deixou que a sensação viesse por inteiro. Estava ali, mas ao mesmo tempo não estava. Sentia nas mãos o cimento do parapeito, mas parte de seu eu ganhara vida própria e, sozinha, se deslocava. Mergulhara no canal e, junto com as folhas, descia agora por seu leito, boiando, em abandono.
Não durou mais do que alguns segundos. Quando o momento passou, a mulher abriu os olhos e, já recomposta, afastou-se da amurada. Deu um último olhar para as árvores desfolhadas e recomeçou a caminhar. Ainda que apenas por um instante, vivera a sensação de ser uma folha flutuando no canal. Mas não estava impressionada, isso já lhe acontecera antes. E afinal, pensou, não somos todos um pouco assim? Nesta vida maluca, cujo sentido nos escapa, somos talvez isto mesmo - como folhas na água.