Dizem que João Cabral de Melo Neto não gostava de música. Seu amor às palavras talvez fosse tão absoluto que não restasse lugar para mais nada. Ou talvez sua alma, educada pela pedra (imagem criada por ele próprio), fosse tomada pela secura - embora secura de indescritível beleza. ''No Sertão a pedra não sabe lecionar/ e se lecionasse não ensinaria nada,/ lá não se aprende a pedra: lá a pedra,/ uma pedra de nascença, entranha a alma''.
No outro extremo, sei de um músico - João Donato - que não tem o menor interesse pelas palavras. Seu mundo é a melodia, o ritmo, o som, mais nada. Muitas de suas músicas, lindas, deliciosas, trazem, em vez de letra, um palavreado que nada significa mas que se harmoniza à melodia de forma perfeita.
Há uma beleza nessa radicalização, nos dois casos. Mas eu, de minha parte, não consigo imaginar a vida sem uma coisa nem outra. Vivo das palavras, delas me alimento desde criança. Lembro de quando, ainda menina, pousei pela primeira vez os dez dedos sobre o teclado preto e dourado de uma velha máquina de escrever. Nesse dia, nesse instante, tive uma forte sensação de reencontro, de reconhecimento, que levei anos para compreender. Durante muito tempo, achei que aquela sensação se devia à minha vontade de tocar piano, nunca realizada. Mas décadas depois, quando finalmente comecei a escrever, entendi que ao pousar os dez dedos sobre as teclas da máquina pela primeira vez eu estava intuindo minha razão de viver.
Mas, se vivo das palavras, por outro lado tenho a música como permanente companheira. E foi por causa dela que outro dia vivi um momento inesquecível, assistindo a um show de Durval Ferreira, esse grande compositor da bossa-nova que não é tão conhecido quanto devia (uma injustiça). Era uma noite de festa, para convidados, e o clima era caloroso, acolhedor. Mas o que primeiro me chamou a atenção foi a quantidade de músicos presentes, no palco ou na platéia. Cinco saxofones tocando ao mesmo tempo é algo de uma força impressionante. E lá pelas tantas já havia quase vinte músicos tocando juntos, todos parecendo irmanados por um sentimento de amor à música, tomados por uma alegria espontânea, rara. De repente, quando Leny Andrade subiu ao palco e começou a cantar ao lado de Durval Ferreira, reparei que os dois tinham algo em comum: uma brejeirice no olhar, um sorriso tão sapeca, que era como se fossem dois meninos se divertindo, fazendo algo proibido. E eu entendi tudo. A música os fazia - a todos ali - novamente crianças.
Foi uma festa linda. Só faltou nosso querido Juarez Araújo, com seu sax e seu sorriso. Aliás, pensando bem, não faltou não. Juarez também estava lá.