À espera de um táxi em Laranjeiras, parada junto ao meio-fio, eu olhava para o prédio em frente, apreciando sua beleza. Era um prédio pequeno, de apenas três andares, cuja portaria - um belo portão de madeira trabalhada - se erguia um pouco acima da rua. Para se entrar no prédio, era necessário galgar quatro ou cinco degraus de uma escada de pedra, com corrimões de bronze. Era o que tínhamos ali: pedra, madeira e bronze. Três materiais nobres, símbolos de outros tempos.
E foi olhando para aquela portaria que de repente comecei a pensar na preservação de prédios pequenos e antigos, mesmo os que não têm um valor arquitetônico bem definido. Outro dia, folheando uma publicação da Prefeitura sobre os prédios do Jardim Botânico, descobri que o edifício onde nasci, na Rua Faro, entrou na lista dos bens preservados. É um prédio pequeno, de apenas dois andares, que nada tem de especial - é feioso, até. Mas a notícia me encheu de alegria. Sei que existe muita polêmica a respeito do assunto, mas se a opção é destruir sou sempre a favor da preservação, mesmo que ela inclua equívocos, injustiças, problemas. E mais: acho que a verdadeira preservação não deveria incluir somente prédios, mas também estabelecimentos que contribuem para formar o espírito do lugar.
A Dias Ferreira, por exemplo. O charme maior dessa rua do Leblon tem sido que, nos últimos anos, em meio aos restaurantes chiques que ali surgiram, ainda existem os botequins, os mercados, as lavanderias, as lojas de piano ou de uniformes de trabalho. Tudo isso, junto com as livrarias e os cafés, ajuda a formar o espírito do lugar. O chamado comércio de quarteirão, as pequenas lojas de serviço, tem um papel fundamental nessa mistura. E essas lojinhas deveriam ser preservadas por decreto, subsidiadas, o que for. Alguma coisa precisaria ser feita para evitar o assédio, caso contrário todos esses pontos, supervalorizados, acabarão sendo repassados. Essas lojas tão simpáticas irão desaparecer, em seu lugar surgirão novos restaurantes finos - e aí a Dias Ferreira não será mais a mesma.
Porque a beleza dela está na mistura.
Nada é mais carioca do que isso. O Rio é assim - uma cidade mesclada, não partida. Um misto de beleza e bagunça, de terror e alegria. Talvez por causa da paisagem, não sei. Ou porque na praia, de calção ou biquíni, sejamos todos iguais. Sei lá. Mas o fato é que aqui o dinheiro não manda sozinho. E um botequim pé-sujo pode muito bem ter o mesmo status de um restaurante cheio de estrelas. Isso é uma parte importante de nosso patrimônio cultural. É a verdadeira mistura carioca.