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Natureza-morta


Sentada na ante-sala do consultório, a mulher esperava. E, enquanto esperava, olhava em torno com seus olhos ávidos, na varredura de cada centímetro do cenário à sua volta. Era sempre assim. Quando tinha de esperar, em algum consultório, casa ou escritório, dedicava-se a uma estranha mania, cultivada havia muito: imaginar-se limpando, reformando e arrumando o lugar.

Começava por escrutinar as paredes, os móveis, os tapetes, tudo, com seu olhar que não saltava sequer um centímetro. Ali, tinha diante de si um sofá de brim azul-marinho, de três lugares, ladeado por mesinhas de madeira clara e tampo de vidro, sobre as quais haviam sido colocados dois abajures de pés de louça branca, com as cúpulas um pouco maiores do que deveriam ser. Na parede à sua frente estava um quadro que ela achara bonito, uma natureza-morta mostrando uma espécie de balcão branco, com uma garrafa e frutas, tendo ao fundo o mar azul. O chão da saleta onde estava era de lajotas e no corredor à esquerda havia uma série de aquarelas muito semelhantes entre si, com mínimas variações, todas exibindo um vaso contendo uma única tulipa vermelha.

Ah, suspirou - o que faria primeiro? Gostava do quadro, daquela natureza-morta, mas não do brim que forrava o sofá e muito menos daqueles abajures horrorosos. As aquarelas no corredor talvez deixasse. Mas a ante-sala em si ela modificaria, sem dúvida. Trocaria o sofá por um de napa branca. Sim, suja muito, e daí? Na minha cabeça as coisas só existem no instante em que ficam prontas, lindas, perfeitas. Se sujar depois, já não é problema meu. Enfim, poria, sim, a napa branca, o que realçaria a luminosidade da natureza-morta atrás, e os abajures horrorosos mandaria embora, trocando-os por luminárias mais modernas, talvez com bolas de vidro branco, fosco. O chão forraria de...

Droga! Alguém a chamava. Estava na hora de entrar. Ia ter de deixar para depois, era sempre assim. Aquilo a deixava irritada. Tinha pensado na reforma, mas nem ao menos começara a limpeza, a faxina dos rodapés, o álcool que passaria nas paredes, o lustra-móveis que, com a ajuda de uma flanela... mas, ora, a enfermeira insistia, estava mesmo na hora de entrar.

Resignada, levantou-se. Enquanto dava os primeiros passos rumo ao corredor, procurou pensar em alguma coisa que lhe desse prazer, alguma coisa arrumada e perfeita. Sua gaveta de calcinhas, por exemplo. Dobrava-as todas da mesmíssima maneira, nem uma dobrinha a mais, nem uma dobrinha a menos, e colocava-as em degradê, das cores mais claras para as mais escuras, em perfeita arrumação, em criteriosa harmonia. Harmonia. Era isso o que gostava naquela natureza-morta. As cores eram harmônicas, as linhas bem distribuídas, tudo em seu lugar, tudo... interrompeu-se, pois chegara ao fim do corredor. E cruzou o umbral com mais um suspiro de resignação. O psiquiatra a esperava, sorrindo.


[19/OUT/2003]


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