Gosto de fazer turismo no Centro, de passear a pé tanto pela região da Praça Quinze, à direita da Avenida Rio Branco (que eu chamo de Rive Droite), quanto na região mais decadente (porém interessantíssima) em torno da Avenida Passos, que, sendo à esquerda da Rio Branco, obviamente chamo de Rive Gauche. Há, tanto de um lado quanto do outro, inúmeras ruas e lugares que adoro. No lado direito, a própria Praça Quinze, o Albamar, o Paço Imperial, o Arco do Telles, os centros culturais, a Travessa do Ouvidor. Do outro lado, a Colombo, a Rua da Carioca, o Bar Luiz, o Penafiel, o Real Gabinete Português de Leitura, a Casa Turuna, o Cedro do Líbano, toda a Saara com seu colorido e o cheiro das especiarias. Devo estar esquecendo muita coisa, pois a lista é grande, mas são lugares aos quais não me canso de ir.
Só que outro dia fiz uma coisa que jamais tinha feito na vida: fui à Ladeira da Misericórdia. O que é a Ladeira da Misericórdia? E onde fica? Fica ali na Praça Quinze, entre o Museu Histórico e o Museu da Imagem e do Som, junto à Igreja de Nossa Senhora de Bonsucesso. E é o seguinte: é uma rua onde não mora nem trabalha ninguém, uma ladeira inútil que leva do nada a lugar algum, cujo chão forrado de pé-de-moleque acaba de forma abrupta, numa pequena mureta. É um pé de ladeira, mais nada. Uma ladeira abortada, uma rua interrompida.
Por quê?
Porque, mais do que uma ladeira, a da Misericórdia é um alerta e um testemunho. Uma prova de que o ser humano é capaz de cometer as piores sandices e de que é preciso estar sempre atento contra isso. Ali ficava o pé do Morro do Castelo, onde o Rio foi fundado - o mesmo morro que seria arrasado sob a alegação, entre outras coisas, de que impedia a circulação do ar na cidade. E só o comecinho da ladeira foi mantido, não por misericórdia (que esta, em favor de ruas e morros, não havia) mas provavelmente para que a Igreja de Nossa Senhora de Bonsucesso não perdesse a sustentação. E assim o trecho inicial da ladeira foi poupado, poucos metros de aclive com seu belo calçamento antigo indo dar numa mureta baixa por trás da qual crescem árvores.
E só. Ela acaba ali.
Assim como do lindíssimo mercado da Praça Quinze (destruído para a passagem de um viaduto) só restou a torre onde hoje é o Albamar, o pé da Ladeira da Misericórdia permaneceu para nos alertar, para que jamais esquecêssemos. E com o passar dos anos pedras e ferros continuam dando seu testemunho, mostrando-nos o quanto o homem é capaz de, por motivos vãos, destruir parte da História da cidade. Sem misericórdia.