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O pombo e os sapatos

Talvez tenha sido por causa do pombo.

Há quem deteste os pombos, alegando que são pássaros agourentos ou que transmitem doenças. Eu, não. Gosto deles. Acho bonita sua revoada, a perfeita sincronia com que dão volteios no ar, assustados ante qualquer barulho ou agitação. Eles me fazem pensar em Veneza. Mas naquela manhã não havia revoada e sim um único pombo. Eu caminhava em direção ao chaveiro quando o avistei, todo encolhido num canto, no chão da lanchonete. Ao lado dele havia um copinho plástico, desses de cafezinho, com água, que alguém na certa botara, com pena do pombo doente. Sim, porque estava doente, sem dúvida. Todo arrepiado, parado ali, naquele canto. Também tive pena. Mas, na pressa do dia-a-dia, segui rumo ao chaveiro, alguns metros adiante.

E, assim que me debrucei no balcão, reparei nos sapatos. Como o sapateiro e o chaveiro dividem o mesmo boxe, a parede estava cheia de sapatos, que fiquei observando, enquanto esperava minha chave. Eram quase vinte pares, pendurados, alguns emborcados, com números escritos a giz na sola, outros virados para fora, exibindo-se. Havia botinas, sandálias, botas, escarpins. E até um tamanco à Carmem Miranda, de verniz preto com, acreditem, peninhas pretas enfeitando a parte da frente. E, de repente, percebi que um sentimento tomava forma dentro de mim. Tentei afastá-lo. Tinha prometido acabar com isso, desde a última vez em que quase chorei ao ver um par de sapatos abandonado no hall do elevador. Concluí que estava comovida por causa do pombo doente. Sim, talvez fosse por causa do pombo.

Era isso. Os sapatos nada tinham a ver com o que eu estava sentindo.

Olhei para os lados, disfarcei, pensei em outras coisas. Mas meus olhos acabavam sempre fixando-se nos pares pendurados. Um a um, eu os observei, quase sem querer, detendo-me nos detalhes, percebendo os pequenos defeitos, as ondulações escavadas no couro pela força dos dedos, denunciando as diversas maneiras de pisar, contando histórias, mostrando toda a diversidade humana... Droga! Virei as costas. Olhei para o céu. Dei uma espiada no relógio. E nada de ficar pronta a chave. Esta é daquelas mais complicadas, explicou o chaveiro. E lá se foram meus olhos, atraídos outra vez para os sapatos. Ali, pendurados, de alguma forma deixavam entrever a vida de todas aquelas pessoas, suas lutas inúteis, mesquinhas, suas pequenas alegrias. A vida em sua essência. Ou mesmo a morte. A morte como foi representada por aqueles sapatos sem dono, numa manifestação feita em São Paulo, em protesto pela violência.

Suspirei. Lá estava eu de novo. Comovida por causa de uns pares de sapatos. Acho que estou ficando velha, pensei. Ou talvez eu estivesse apenas um pouco mais sensível naquela manhã. É. Talvez tenha sido tudo por causa do pombo doente.

[11/AGO/2002]

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