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Multidões

Algumas pessoas têm horror às multidões. Eu, não. Gosto delas. Gosto muito.

Há uma energia quase sexual em desembocar do túnel do Maracanã numa final de campeonato, em dia de arquibancada cheia. Eu me sinto socada por aquele urro em uníssono, aquele troar feroz, que dá um frio no estômago. A boca fica instantaneamente seca, os maxilares contraídos, as mãos úmidas. Corre nas veias um veneno doce, que acelera o coração. Fui a alguns jogos inesquecíveis no Maracanã, nos anos 60, entre eles o Brasil-Paraguai de 1969, pelas eliminatórias da Copa do Mundo, com 180 mil pessoas no estádio, um recorde que não será jamais superado. Enfrentar uma multidão assim é como receber o beijo de um canalha por quem se está apaixonada. É algo feito de excitação e medo.

Mas num estádio de futebol ainda há uma salvaguarda, a própria conformação do lugar. A multidão está espalhada, e de alguma maneira contida. É diferente de estar espremido no meio de uma massa compacta, num comício ou show de rock, no Ano Novo ou no Carnaval. Aí, é como pisar no coração do caos. É preciso coragem, sim, admito. Mas só quem a tem pode desfrutar dessa estranha delícia.

O Cordão da Bola Preta, por exemplo. Agora que o Carnaval de rua do Rio se revitalizou, agora que blocos e bandas se espalham por todos os bairros de forma quase incontrolável, o Bola toma toda a Cinelândia e arredores, transformado num mar colorido e pulsante, com tanta gente por metro quadrado que é impossível enxergar o chão. Não estive lá este ano, mas soube que, pelos cálculos oficiais, a multidão na manhã de sábado chegou a quase 200 mil pessoas. Estive lá há um ou dois anos e me deixei arrastar por aquela onda incontrolável. A certa altura, tinha a impressão de que, se erguesse os pés, continuaria caminhando sem tocar o chão, sendo levada nos braços da multidão.

Talvez pareça contraditório, mas, em momentos assim, sinto como se estivesse a salvo. Dissolvida na massa, desprovida de individualidade, nada pode me atingir. Não há tristeza nem culpa, não há angústias ou contestações.

Não há pecado em meio a milhares de pessoas.

A multidão redime. A multidão perdoa.

minimos@jb.com.br

[09/ABR/2006]

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