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Observações de Marsílea
[19/JUL/2004]
Marsílea é uma paulistana de vinte e poucos anos que recentemente trocou sua São Paulo natal pelas terras (quase sempre) ensolaradas de nosso Rio de Janeiro. Veio juntar os trapos com sua cara metade, estão morando ali no Bairro Peixoto. É uma menina bastante observadora, tem uns pontos de vista interessantes. Às vezes reclama da vida, mas tem sempre um quê de valentia, um ar de quem está disposta a enfrentar os fatos sejam eles quais forem. Descobri tudo isso sobre a Marsílea lendo seu blog, o Maria Cecila (ou não) onde ela exerce seu lado ''escritora'', aparentemente apenas como exercício mental - deve ajudar a colocar as próprias idéias em ordem, mesmo que os textos não sejam necessariamente autobiográficos, como me contou a própria autora. E como ela, muitos outros internautas se tornaram escritores pelo simples fato de que escrevem e têm leitores - sem precisar se preocupar em soar 'comercialmente atraentes' aos ouvidos das editoras. Navegando pelo mundo dos blogs é possível ler uma galera que talvez represente de maneira mais verdadeira a ''nova geração de jovens escritores'', principalmente no caso dos que não se auto-denominam como tal. E tem muita, mas muita coisa interessante dando sopa por aí.
''Na verdade, por muitos anos não me sentia filha do meu pai nem da minha mãe. Sabia que a única pessoa que estava, de fato, formando meu caráter e dando-me importantes noções acerca da vida era minha avó espanhola. Ela era meu espelho e eu me sentia, praticamente, um agarradinho nela. Podia ficar um dia sem ver minha mãe, meses sem ver meu pai e um bom tempo sem ter contato com mais ninguém. Menos com minha avó. Sem ela não dava. Era simplesmente doído demais passar algumas horas longe. (...) Ela sempre esteve lá. Era ela, vaidosa, linda, perfumada e desejada por todos os dançarinos de tango de meia tigela.
Era ela também, por outro lado, uma mulher sempre mal amada, com um casamento decadente, filhas tentando ainda viver, duas netas aterrorizantes e eu, uma espécie de quarta filha.
Era com ela que eu ia aprendendo a viver mais e melhor a cada minuto que passava. Foi com ela que eu entendi o que é realidade. Ela me ensinava o que diziam ser bom, o que era bom e, mais importante ainda, o que era felicidade. Entendi com ela que nada na vida é muito simples e nunca as coisas são de graça. Vi que às vezes você só vem ao mundo para se dar mal e se tornar uma pessoa espiritualmente elevada. Nada mais. E que, sendo isso ou qualquer outra porcaria, não fará a menor diferença para ninguém. Ninguém mesmo. É só você, você e sua consciência sublime, que sentirá o que é ou não ser. E se por um lado existia toda essa fixação com Dona Pureza - sim, esse é o nome - existia, por outro, uma tremenda dificuldade em me enxergar como filha de quem eu sou. Sempre que essa cobrança batia em mim eu me afastava dela da melhor maneira que podia. Ou me jogava durante as partidas de taco, ou mandava e desmandava na escola onde eu era diretora, ou fazia novas promoções no super que eu montava, ou assava uma nova fornada no meu café, ou inventava qualquer desentendimento menos sério entre as barbies lésbicas.
E tudo sempre sozinha.''
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