Enquanto escrevo esta coluna, o mundo explode lá fora. Manifestantes esperneiam, o Michael Moore soltou os cachorros no Oscar, mas, pelo visto, nada conseguirá deter Bush em sua cruzada pela adoção da hipocrisia como moeda global. De certa forma ele conseguiu - num tiro saído pela culatra - inverter alguns valores, algo que tempos atrás soaria inverossímil: os franceses acusando os Estados Unidos de arrogantes, a Alemanha se recusando a ir para a guerra e, principalmente, o mundo unido numa causa: a 'paz'.
A Guerra do Golfo de 12 anos atrás já havia dado mostras de como seriam os enfrentamentos bélicos do século XXI: uma guerra tecnológica, para ser assistida ao vivo e a cores, de preferência em dolby surround. Se naquela época o must era assistir a pontinhos verdes-claros explodindo, na atual empreitada, o show engrenou de vez: videophone, explosões em tela cheia e um trilhão de informação na internet. Sim, na World Wide Web, hoje uma extensão de nossa casa, mas que naquela época, era um espermatozóide. Flash, video e real player não passavam de sonhos futuristas. Blogs? Ahn? É o nome de um personagem de Jornada nas Estrelas?
Uma década depois e tudo mudou. E que diferença toda essa tecnologia 'internética' está fazendo na atual conjuntura? Toda e mais alguma. Não é só a estrutura organizacional do mundo que está sendo remexida. A imprensa tradicional - em especial as grandes corporações - estão sendo postas em xeque. E é aí que a internet entra: tão ou mais ágil que a TV, só que descentralizada e mais democrática. Além dos sites 'oficialmente' noticiosos, há na Rede uma enxurrada de informativos virtuais, além de blogs e mais blogs. Qualquer um com olhos, ouvidos e um computador tornou-se um potencial agente informativo.
Você sabia que metade dos acessos ao site do britânico The Guardian vem dos EUA? Isso diz muita coisa sobre a imprensa americana. Sobre a cobertura da guerra feita pelas redes de TV americanas, nem preciso comentar. Já com relação à européia e sul americana, paira no ar um sentimento anti-americano, tão guiado por interesses comerciais quanto esta corrida ao petróleo. Os jornalistas brasileiros - obrigados a acompanhar a guerra 27 horas por dia na TV - já perceberam que as três emissoras árabes noticiam três guerras diferentes. É nesse campo minado que os blogs têm se esgueirado e conquistado terreno, talvez já colocando em prática algumas teorias formuladas por estudiosos do assunto, que diziam - logo que os blogs caíram no gosto do povo, há 1 ano e meio - que estes mudariam o futuro da imprensa. Tem de tudo na Rede: jornalistas que noticiam por conta própria, informativos coletivos, pontos de vista americanos, iraquianos e do raio que o parta. O grande problema é decidir em quem acreditar. Mas nada que você já não faça ao ler dois jornais, com a diferença que agora você sabe que não há interesses corporativos pelos cantos. Separei três blogs interessantes, que vão servir de ponto de partida. O primeiro é o qHate, de supostos jornalistas instalados no Kwait. Tem design limpinho e bastante informação. O segundo é um blog de um jornalista americano perdido por lá: em Back to Iraq, o repórter Christopher Allbritton (ex-New York Daily News) conta suas impressões sobre o conflito. O terceiro é o outro lado da moeda. Em Where is Raed - blog de um iraquiano à procura de seu amigo desaparecido - é possível conhecer o ponto de vista das maiores vítimas disso tudo: os civis. Pra fechar, um brinde: rume para o Warblogs.cc e prepare-se para fazer uso de seu senso crítico.
dear_raed.blogspot.com
www.qhate.com
www.back-to-iraq.com/
www.warblogs.cc