Ao dar-lhe o nome de Jean Charles, os pais do rapaz assassinado pela polícia britânica talvez quisessem lhe dar o mundo. Não se chamou João, nem Carlos; chamou-se Jean Charles, como a estrela da última edição de um programa de tevê, destinado a
voyeurs, se chama Jean Willys. Os pobres acreditam em misteriosos arcanos. Os nomes estrangeiros, em seu imaginário, abrem caminho ao êxito, à fama e à riqueza. Os dois jeans deixaram o estreito círculo da pobreza e ficaram conhecidos. Um ganhou seu milhão de reais; o outro teve o nome divulgado ontem pelos principais jornais do mundo. Um se fez professor universitário e o outro, bom eletricista, foi para Londres.
Por que os pobres dão a seus filhos nomes estrangeiros? Por que há tantos máiquels jáquisons (muitos grafados assim), tantas madonas, tantos williams ? No passado, as pessoas ilustradas ou ideologicamente interessadas buscavam nomes de personalidades políticas da História (os washingtons, os jeffersons, os benitos mussolinis) para seus filhos. O próprio Mussolini se chamava Benito - e não Benedetto, como seria natural - em homenagem a Benito Juarez, o herói do México. Mas os pobres intuem que o caminho do poder político não é deles. A glória a que se acham destinados se encontra nos espetáculos, como o futebol, as touradas e, para os mais bonitos, as passarelas. Talvez os pais do rapaz que morreu em Londres tivessem ouvido falar em Jean-Paul Belmondo e em Charles Chaplin e escolhessem os dois prenomes para o menino. Talvez.
O importante é refletir sobre a intensa emigração de brasileiros, nos últimos 40 anos. País enorme, com espaço para população bem maior, o Brasil deixou de ser terra de imigração, como fora nos 150 anos precedentes, e passou a exportar seus jovens. Quando os europeus aqui chegaram, expulsos de uma Europa em crise provocada pela impiedosa ascensão do liberalismo econômico do Século 19, o Brasil foi, para muitos, o Eldorado. Outros não conseguiram sair de sua condição: eram pobres lá, pobres continuaram aqui e aqui morreram pobres.
Outros fatos de hoje nos conduzem àquele tempo. A frustração dos ideais igualitários da Revolução Francesa, com a restauração monárquica, seguida da derrota das rebeliões operárias de 1848 e da Comuna de Paris, em 1871, ao mesmo tempo em que o capitalismo entrava em fase de acumulação acelerada e selvagem, levaram Malatesta e outros, em nome dos anarquistas, a escolher o terror como método. Em 11 anos, entre 1890 e 1901, caíram as cabeças coroadas do rei Umberto I, da Itália, da princesa Elizabeth, da Áustria, e as cabeças civis do presidente Sadi Carnot, da França, do presidente William McKinley, dos Estados Unidos, e do primeiro-ministro da Espanha, Cánovas del Castillo. Treze anos mais tarde, em 28 de junho de 1914, outro ato de terror, o assassinato do arquiduque da Áustria Franz Ferdinand e da grã-duquesa Sophie, em Sarajevo, por Gavrilo Princip, rapaz de 19 anos, foi o estopim da Primeira Guerra Mundial.
Hoje, o terrorismo atua em outro nível. Os anarquistas clássicos, fora grupos de intelectuais isolados e células juvenis movidas pela aventura, deixaram de existir. Os novos terroristas se insurgem contra o totalitarismo mundial. Não se acham terroristas, mas contra-terroristas: terroristas, em sua visão, são os que detonaram a bomba de Hiroxima, invadiram e ocupam o Iraque, em nome de uma mentira, mataram milhares nas guerras localizadas do século 20, entregaram a Palestina a judeus da Europa e protegem ditadores sanguinários. Se lhes perguntam por que matam inocentes, respondem indagando por que razão morrem seus próprios inocentes. No mundo em que um brasileiro de Juiz de Fora é seqüestrado por rebeldes no Iraque e outro brasileiro, também de Minas, é assassinado pela Scotland Yard em Londres, devemos trabalhar para que nenhum compatriota tenha que buscar o pão no estrangeiro e ali encontrar as bombas do terror, ou as balas do contra-terror, o que, para os que morrem, dá no mesmo.