Os governistas da CPI dos Correios, obedientes a determinações da cúpula do PT (estimulados, por ação ou omissão, pelo próprio presidente Lula da Silva), recorreram a todos os manuais de chicanas parlamentares para impedir a quebra do sigilo bancário, fiscal e telefônico de Marcos Valério, acusado por Roberto Jefferson de figurar entre os operadores do "mensalão". E procuraram desqualificar a testemunha Fernanda Karina, ex-secretária do homem da mala, no depoimento em que confirmou o que dissera sobre o antigo chefe.
Até o deputado Chico Alencar, quem diria?, valeu-se da experiência dos palanques para confundir e intimidar Fernanda. Um dos raros petistas que pareciam agarrados à bandeira da ética na política, o deputado fluminense topou arriá-la para unir-se aos advogados do bandido. No grupo escalado pelo governo para defender o indefensável, salvou-se o senador Delcídio Amaral, presidente da CPI. Embora filiado ao PT, autorizou a quebra de sigilo reivindicada pelo Brasil decente.
A decisão levou José Genoino, presidente do partido, ao limiar do pânico. "Você quer acabar com a gente?", irritou-se o Alto Companheiro durante uma conversa telefônica com Delcídio. O diálogo começou mal. Terminou um pouco pior. Nos dias seguintes, o comportamento e a fisionomia de Genoino denunciaram uma alma sob o domínio do medo. Nem poderia ser diferente, sabe-se agora.
Ele se havia apavorado com a abertura do atalho que levaria ao inverossímil descaramento que sublinha o caso do empréstimo no BMG. A divulgação do documento transformou o presiden+-.te petista num dos vértices do triângulo completado por Delúbio Soares, tesoureiro do partido, e pelo onipresente Marcos Valério. Há detalhes perturbadores. Antes da consumação do empréstimo que acabaria pagando, Valério levou diretores do BMG para uma conversa com o então ministro José Dirceu.
O que tem a dizer Genoino sobre o episódio ? Vai continuar pendurado na bisonha versão segundo a qual costuma assinar sem conferir a papelada que Delúbio lhe passa? O que tem a dizer Dirceu? Vai repetir que só conhecia Valério de vista? E o que tem a dizer a tropa de choque governista na CPI? Neste momento, todos os integrantes estão sob suspeita de cumplicidade ativa: tentaram obstruir a obtenção de provas fundamentais para o esclarecimento de parte das incontáveis patifarias que compõem o pântano da corrupção.
É possível que alguns ignorassem a existência do empréstimo. Mas todos sabiam que seria perigosa a devassa dos porões administrados por Valério, e por isso mesmo tentaram impedi-la. A indignação do Brasil honesto induziu Delcídio Amaral a cumprir seu dever. E então foram escancaradas movimentações financeiras malcheirosas e negociatas explícitas. E enfim se descobriu a trilha aberta em conjunto pelo generoso amigo mineiro, dirigentes do PT e mandarins do Planalto, além de um bando de mateiros vitaminados pelo "mensalão".
A tropa de choque governista ficou muito mal no retrato de uma CPI nascida sob o signo da indolência. As sessões se limitam a três dias por semana. O presidente Delcídio Amaral se recusa a convocar depoentes indispensáveis, como Delúbio Soares, José Genoino e José Dirceu. Ele parece acreditar que dirige investigações concentradas exclusivamente nas bandalheiras nos Correios. Mas o vídeo que mostra o chefe de departamento Maurício Marinho recebendo propinas e afirmando que Roberto Jefferson chefiava a quadrilha já foi reduzido às reais dimensões: trata-se do prólogo de uma história longa e medonha. Ela vai montar o painel do maior esquema de corrupção já forjado por pais da pátria.
Nesta terça-feira, a CPI ouvirá três envolvidos no asterisco reservado à autoria da gravação da fita protagonizada pelo extorsionário postal. Certo, o caso deve ser desvendado. Mas o país está de olhos postos em bandidagens de calibre muito mais grosso. E aguarda, ansioso, a chegada dos xerifes a paragens que requerem investigações imediatas. Jefferson sugeriu, por exemplo, que os vínculos entre Valério e o Banco do Brasil sofram o rastreamento promovido nos laços entre o homem da mala e o Banco Rural. Por enquanto, nada se fez.
Enquanto a CPI caça trombadinhas, os ladrões do trem pagador contam dinheiro na locomotiva.