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Meirelles acha que pena por ser rico
[05/AGO/2004]
''Sair, nem pensar?''
''Nem pensar'', responde Henrique Meirelles referindo-se à hipótese de, por iniciativa própria, deixar a presidência do Banco Central, por causa das denúncias de que teria dado informações contraditórias à Receita e à Justiça Eleitoral, quando voltou ao Brasil para se candidatar a deputado federal em 2002, e, mais recentemente, patrocinado uma transação imobiliária irregular em Goiás.
Meirelles simplesmente não vê motivo para tanta confusão a respeito de duas acusações, segundo ele, inexistentes do ponto de vista do mérito. Para o presidente do Banco Central, o que existe subjacente às denúncias é o preconceito contra o rico, principalmente quando figura pública.
''Aqui o grande patrimônio é sempre associado a ações escusas. Já vivi isso quando voltei dos Estados Unidos para me candidatar, uma cobrança feroz à presença do 'banqueiro' na política.''
Agora, Meirelles acha que vive uma ''segunda rodada'', muito ''mais selvagem'', na opinião dele por causa dos bons resultados da política econômica. ''Apanhei um ano e meio porque o país iria para a recessão, agora apanho porque as coisas correm o sério risco de dar certo.''
A despeito do diagnóstico da motivação eleitoral, Henrique Meirelles não se atreve a subestimar o impacto político das denúncias e o cenário de dificuldade em que se encontra por causa da conformação de um clima de impressões desfavoráveis a seu respeito.
Ainda assim, se aborrece com a preponderância das versões em detrimento dos fatos: ''É preciso raciocinar para além das aparências.''
Nesse terreno das objetividades, considerado por ele o único passível de crédito, Meirelles repete o que já informou aos superiores, o ministro da Fazenda e o presidente da República.
''Não paguei imposto de renda no Brasil em 2001 porque ainda morava nos Estados Unidos e pude disputar eleição em 2002, porque nunca deixei de ter domicílio eleitoral em Goiás, onde minha família fez política a vida toda.''
Isso quanto à acusação de discrepância entre as informações prestadas ao fisco e à Justiça Eleitoral. Em relação à operação casada de compra e venda de um imóvel feita em dinheiro vivo através de um parente, Henrique Meirelles reconhece impropriedades, não ilegalidades.
''Eu estava na China a trabalho, mas se ele tivesse me telefonado eu teria aconselhado a não fazer a operação em moeda sonante justamente para não dar uma impressão errada. Mas o dinheiro foi retirado e depositado em conta bancária, tendo, portanto, origem e destino conhecidos.''
Isso, de acordo com o presidente do Banco Central, é o que existe de concreto. ''Agora, você me pergunta, há margem para exploração política? Tanto há, que está sendo explorado.''
Na opinião dele, muito em função da saída do diretor de Política Monetária do BC, Luiz Augusto Candiota. ''Não discuto as razões dele, mas é indiscutível que sua atitude deu sustentação à suposição de que havia mesmo algo de errado no Banco Central.''
Bem, se o presidente do banco reconhece complicações no quadro político, como agir para dissolvê-las?
''Sinceramente, não sei. No campo da ética já esclareci tudo, fiz tudo o que podia ser feito, agora minha expectativa é a de que o assunto volte à sua real dimensão, porque não há ilícito nem leviandade a serem descobertos nem corrigidos.''
A administração política da história, Henrique Meirelles deixa a cargo do Palácio do Planalto. Inclusive a decisão de ir ou não ao Congresso explicar de público suas razões.
Manifesta clara indisposição de opinar a respeito, mas fica nítida sua reserva quanto ao momento e a propriedade de fazê-lo, ''num ambiente politizado''.
''Não sei se é o fórum ideal para o exame frio dos fatos'', conclui para, em seguida, acrescentar uma comparação: ''A mulher de César deve ser e parecer honesta. Mas não necessariamente a forma mais eficaz de se comprovar essa honestidade seja sua exibição a provocações, só para testar-lhe a resistência.''
Ontem, em discurso escrito, o presidente Lula citou Ulysses Guimarães, ''na campanha da resistência de 1974, em que proferiu uma frase de uma música que talvez seja do Chico, mas cantada pelo Caetano, que dizia: Navegar é preciso''.
Aos redatores palacianos, uma informação: o referido discurso data de setembro de 1973 e dizia o seguinte: ''Nossa carta de marear não é de Camões, mas de Fernando Pessoa ao recordar o brado: Navegar é preciso, viver não é preciso.''
Poema de um tempo em que Chico e Caetano nem sonhavam pelos mares dessa vida navegar.
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