A persistência na queda e o fato de a redução atingir todos os índices utilizados para avaliação do governo federal são o dado mais chamativo da pesquisa divulgada ontem pelo Instituto Sensus.
De janeiro para cá, vem crescendo a percepção negativa e diminuindo a positiva sob todos os aspectos - do desempenho pessoal do presidente da República à apreciação de políticas específicas, passando pelo nível de confiança no cumprimento de promessas de campanha.
Considerando que durante todo esse período o governo foi diletante no uso de propaganda oficial e na exposição da figura presidencial, algo de dissonante deve haver entre a estratégia adotada pelo Palácio do Planalto - de suprir deficiências objetivas com abundâncias retóricas - e a expectativa da população.
Ao governo seria muito mais producente dedicar a atenção devida aos dados do que tentar desdenhar dos números. Nada desprezíveis quando examinados em conjunto.
Quando Luiz Inácio da Silva assumiu, 83,6% das pessoas tinham uma expectativa positiva em relação ao seu desempenho pessoal; hoje, são 65,3% os que continuam pensando o mesmo.
Em maio do ano passado eram 78%, em outubro, 70%, e assim vieram vindo os índices em queda lenta, mas persistente.
O movimento foi igual no tocante à avaliação do desempenho do governo: em janeiro de 2003 a expectativa positiva era de 53% das pessoas; em agosto a avaliação foi de 48,3%; em outubro, 41,6%; em dezembro, 41%; e agora, 39,9%.
Promessas de campanha? Em março, 64% dos entrevistados achavam que estavam sendo cumpridas; hoje, 48% mantêm a opinião. O apoio à condução das políticas econômica e social obedeceu a trajetória semelhante: ambos os itens desceram da casa dos 60% para o patamar de 45%.
É uma redução considerável que não pode ser atribuída apenas às condições adversas, inclusive porque estas não foram surpreendentes para a população.
Ao contrário, durante todo o primeiro ano o presidente pediu paciência e ressaltou à nação que o cenário era de dificuldades pois havia recebido um país em pandarecos. Depois de eleito não vendeu terrenos no paraíso.
E, mesmo assim, a pesquisa mostra que as pessoas esperavam outra coisa. O que exatamente, muito provavelmente se perguntadas não saberiam dizer, mas, atestam os números, a sensação é de, digamos, reversão de expectativas.
Tanto que no início do governo, a avaliação negativa era de 2,3% e a regular de 17,7%. Um ano depois, 15% avaliam negativamente a administração do PT e 40,6% - mais do que o dobro - consideram-na regular.
Não é certeza, mas quem sabe os resultados da pesquisa não guardam relação direta com o cotidiano presidencial, talvez insatisfatório e distante das demandas reais da sociedade, não obstante bem-intencionado?
Ontem, por exemplo, repetindo agenda cumprida inúmeras vezes nos últimos 13 meses, Luiz Inácio da Silva reafirmou sua condição de porta-voz do combate à fome.
Presidiu solenidade de instalação da ''Expo-Fome Zero'', onde informou aos brasileiros que a carência alimentar resulta da má distribuição de renda e anunciou medida para combater o problema: vai enviar cartas a vários chefes de Estado e governo pedindo apoio à implantação do Fome Zero mundial.
Gesto de efeito garantido, pois claro não há neste mundo ser vivente favorável à fome, mas de objetividade questionável. Uma população com dificuldades amazônicas como a nossa chega uma hora cansa de ouvir palestras a respeito de generalidades de boa repercussão e intenções caritativas.
Não é preciso falar a nenhum dos integrantes do governo a respeito da seriedade dos problemas brasileiros e da necessidade de governantes terem sobre eles uma abordagem acurada e abrangente.
Mas a frustração traduzida na série de pesquisas é um sinal eloqüente de alerta. Diz muito a respeito dos excessos da atitude propagandística e do risco de ser percebida como único - e, portanto, insuficiente - instrumento de atuação administrativa disponível.
Quando o presidente, ao final de um ano de governo, disse que acabara a fase do ''eu acho'' para começar a era do ''eu faço'', é possível que estivesse tentando justamente evitar a desesperança e buscando realimentar a boa expectativa.
A obtenção de resultados, porém, implica a alteração das atitudes do dia-a-dia, ainda plenas de redundâncias e tão excessivamente pautadas pelo ''eu acho'', que fere de morte a crença na promessa do ''eu faço''.
E a descrença é ruim para todos.
Como nada indica que as insatisfações com o governo vão resultar em entusiasmo pelas forças políticas de oposição - ainda donas de baixo capital de identificação popular -, a indiferença passa a ser a tendência da estação.