O sorriso de desdém e benevolência que Anne Krueger só controlou 20 segundos depois de ouvir, ao lado do ministro da Fazenda, Antônio Palocci, a referência às declarações do presidente Luiz Inácio da Silva sobre o acordo com o FMI revelou a insolência da representante do Fundo.
Delegada de um organismo internacional em missão de negociação num país estrangeiro, a senhora em questão deveria conter seus sentimentos frente às câmeras de televisão, ainda mais quando referentes a autoridades locais.
Mas a reação - disponível para quem acompanhava ao vivo pela TV a cabo a entrevista de Palocci anunciando os termos do acordo - não deixou de evidenciar também o quanto foi desnecessária, e puerilmente arrogante, a manifestação do presidente da República na África.
Como que a exercitar o que entende seja afirmação de soberania nacional, o presidente cometeu algumas impropriedades que - mais uma vez - criam senões à sua imagem.
Tudo transcorria normalmente por aqui, a missão do FMI recebia do ministro uma proposta de condições para a renovação do contrato pelo qual o Brasil pode contar com boa reserva de dólares em caso de necessidade, até o presidente resolver fazer galanteios ao passado.
Falou algumas coisas desprovidas de sentido - como quando tratou do imperativo de ele examinar os aspectos técnicos do acordo, como se não fosse esta a função da Fazenda, que, aliás, acabara de pôr todas as tecnicalidades nas mãos da senhora Krueger - e outras de uma obviedade constrangedora.
A esta seara pertence a data ''imposta'' pelo presidente Lula para assinar o acerto com o FMI, dezembro. Considerando que o acordo em vigor vence no fim do ano, e que chama-se dezembro o último mês de um período de 12, nem se desejasse ardentemente assinar agora o ministro da Fazenda poderia fazê-lo.
O presidente também alertou que não haverá acordo se isso ''prejudicar o crescimento''. O aviso soaria mais verdadeiro, caso fosse possível, numa discussão dessa natureza com um organismo com as funções do FMI, definir o que seja ''prejudicar o crescimento''.
De mais a mais, a menos que o governo cogite da possibilidade de um recuo na intenção de renovar o acordo - gesto de custo inimaginável -, a palavra agora está com o Fundo, pois o Brasil já enviou sua proposta. Sob a orientação presidencial, por suposto.
Então, mais uma vez sobram dúvidas a respeito do objetivo, e principalmente da necessidade, de o presidente fazer declarações mais afeitas a um político de oposição.
Ele não ganha nada com a parte da esquerda porventura desconfortável com a assinatura do acordo nem ensina coisa alguma aos setores - muitos e de grande peso - que receberam bastante bem a decisão de renovar e dar ao Brasil uma margem de segurança em caso de crise interna ou externa.
É consenso por quase todos os cantos: o acordo é um fato positivo para a economia.
Sendo assim, é difícil entender o que move o presidente da República a se pôr na contramão da realidade, deixando inclusive a impressão de que suas palavras não contam quando a conversa é séria e mexe com o rumo do Brasil.
Sem meio-termo
De duas, uma: ou o governo manda apurar as denúncias feitas pelo ex-secretário nacional de Segurança Pública, ou processa Luiz Eduardo Soares por calúnia e difamação.
Como até agora não fez uma coisa nem outra, torna-se serventia da casa a conclusão de que o ex-secretário diz a verdade quando declara-se vítima de ''métodos stalinistas e fascistas'' de destruição política e faz denúncias graves.
Relata a pressão de um funcionário, ''petista radical'', para que verbas do Fundo Nacional de Segurança Pública fossem repartidas entre governos estaduais aliados do governo, e fala da existência de outro, cuja tarefa é, segundo ele, fazer lobby para um projeto de troca de todas as carteiras de identidade hoje em circulação.
Desqualificado mental, pessoal e profissionalmente, Luiz Eduardo não poderá ser por um governo que o escolheu como executor do plano de segurança pública e não o demitiu por ausência de atributos para executar a tarefa.
Na posse de seu juízo perfeito, então, o ex-secretário está. Se também está tomado de ira, desejo incontrolável de vingança e, portanto, assacando aleivosias, caberia ao ministro da Justiça a iniciativa de um processo a fim de que não restassem dúvidas.
O silêncio e as reações pífias - como classificar as acusações de ''improcedentes'' - podem querer denotar superior indiferença. Mas soa mesmo a leniência. Para dizer o mínimo.