Coisas da Política
E a frente dá para trás

Solucionática
Troca-troca

Ricardo Boechat - Informe JB
Na linha

Cartas
Inelegíveis

Horóscopo

Eugênio Bucci
O adeus às criancinhas

Millôr Fernandes
Divagar e sempre

Gente
Novos horizontes

Charge Online

Márcia Peltier
Questão de competência

Thomaz Koch
Veteranos

Download
WindowBlinds 3.3

Olha Só Isso
Botando a cara na web

InSite
Gol da rede na Copa da madrugada

Nas Páginas da História
2 de maio no JB









E a frente dá para trás

Essa história de junção de correntes diferentes, em geral, não dá certo, a não ser que haja um objetivo comum muito claro e com efeito mobilizador suficiente para que as diferenças fiquem em segundo plano. Foi assim com o MDB, no qual se juntaram todos os que se sentiram no dever de derrubar, pela via institucional, o regime militar. Ainda antes deste chegar ao fim formalmente, as divergências afloraram e, com o fim do bipartidarismo e a volta dos exilados, a partir de 1979, cada grupo tomou o seu rumo e a oposição aos militares fragmentou-se em vários partidos.

Numa proporção muito menor, mas de fundamento parecido, a união de PSDB e PFL - adversários da época referida acima -, teve como objetivo alegado um projeto de Brasil que incluía reformas estruturais e a busca da estabilidade econômica baseada em fundamentos sobre os quais ambos os partidos apresentavam concordâncias básicas. Mas, mesmo assim, logo que se consolidou o controle da inflação, não como instrumento de governo, mas como valor social, as divergências surgiram e foi o que todo mundo assistiu ao longo desses últimos anos: os problemas que verdadeiramente atingiram o Planalto não foram criados pela oposição, mas pelos aliados.

Tanto que não se pode atribuir ao PT ou a outras forças de esquerda, o fato de muitas reformas terem ficado incompletas. Levaram a fama, pois eram mesmo contra várias mudanças propostas, mas quem tinha força política e interesses arraigados no Estado eram aqueles que se entranharam no poder pós-1964 e, em determinado momento, consideraram que reformas têm limites. Algumas conseguiram barrar, mas outras tiveram de engolir.

Com certeza absoluta há no PFL quem não veja graça alguma no fato de o governo ter perdido a prerrogativa de distribuir concessões de rádio em troca de votos no Congresso. Aqueles empregos nas ineficientíssimas empresas de telecomunicações pelos Estados também instalam banzo em corações conservadores.

Mas esse preâmbulo todo tem, aqui, a única função de sustentar a tese inicialmente exposta, segundo a qual diferentes não se juntam impunemente sem objetivos fortes e claros. E por que a defesa de tal tese?

Apenas para demonstrar uma impossibilidade tão óbvia que surpreende pela longevidade: a aliança do PPS, PTB e PDT chamada de Frente Nacional Trabalhista, ou Trabalhista Nacional, tanto faz, porque o que vale é a ausência de identidade mínima entre seus integrantes. O antigo PCB, ao abrigar a filiação de Ciro Gomes e apoiar a candidatura dele em 1998, acreditou no discurso da nova conformação de centro-esquerda que poderia significar nova força no Brasil, capaz de unir setores de fato interessados no avanço, de forma a permitir a dispensa de eternos acertos com o atraso.

Foi assim até que o PTB, aliado do governo Fernando Henrique, aborrecido com a falta de melhores oportunidades naquela congestionada seara e, animado com a expectativa de boa performance de Ciro Gomes, exercitou seu já famoso senso de oportunidade e aderiu.

O PDT acoplou-se mais recentemente em virtude da falta de opção, por causa das brigas de Leonel Brizola com o PT e o PSB. Brizola impôs a condição de indicar o candidato ao governo no Rio Grande do Sul, o acordo aparentemente foi firmado, mas, no meio do caminho, surgiram dificuldades de origem ainda nebulosas, que acabaram por afastar os parceiros.

As alegações de parte a parte até agora parecem todas fantasiosas, o que autoriza a conclusão de que a realidade é mais simples: andam loucos para se livrar um do outro porque nada os une, tudo os afasta. Se lembrarmos do motivo que fez a crise eclodir em público, veremos como é falsa a alegação de cunho político.

Tudo começou com o desejo do PTB, do PDT e do próprio candidato de aceitar apoio do PFL, nunca proposto. O presidente do PPS, senador Roberto Freire, resistiu não apenas pela impossibilidade ideológica de se juntar aos pefelistas, mas também pela inexistência da proposição. Enxergava ali um truque do PFL para posicionar-se melhor junto ao interlocutor de fato desejado: o governo federal.

A confusão assumiu contornos de guerra civil e agora onde é que está mesmo posta a hipótese de o PFL apoiar Ciro Gomes?

Pois é. O que mostra que quando as coisas carecem de objetivos claros, acabam sempre dando a impressão de que são pautadas por intenções inconfessáveis. Dessa forma, eis que se encontra a tal frente na situação daquela que foi sem nunca ter sido.

E, agora, com o nível de irritação que se instalou à alma do dono da ficha de filiação de Ciro Gomes, Roberto Freire - apontando injustamente como o causador de todos os males -, a candidatura propriamente dita pode até sair, mas não será aprovada sem turbulências e contestações na convenção do PPS que, em junho, terá de referendar o nome de Ciro.

[02/MAI/2002]

   Home > colunas > coisas
Primeira Página