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Argentina precisa de ajuda mundial

DORA KRAMER

Além de todos os seus infortúnios, a Argentina também não contou com a ajuda da sorte, quando a crise por lá explodiu no momento em que os Estados Unidos já se encontravam sob uma administração não exatamente marcada pela preocupação com o que se passa fora das fronteiras norte-americanas.

Sem se utilizar dessas palavras, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, concorda com o conteúdo do raciocínio ao lembrar que o governo de Bill Clinton tinha um programa de apoio internacional que socorreu, não apenas o Brasil, mas também o México, a Indonésia, a Rússia e a Turquia, para citar apenas as nações que passaram por agruras mais agudas nos últimos anos.

''O presidente Bush definiu uma estratégia segundo a qual a era desse tipo de programa de ajuda passou'', diz Malan, da forma mais elegante que encontra para se referir à dificuldade de George Bush em enxergar a globalização como algo que pressupõe a existência e a sobrevivência do mundo à volta dos Estados Unidos. Ele reconhece que, por causa disso, hoje o Brasil teria um custo muito mais alto no enfrentamento de uma crise como a de 1998.

Malan invoca a diplomacia para se abster de estabelecer grau exato de risco que o Brasil corre de se contaminar pela barafunda argentina. Como toda a argumentação dele é na direção de que o perigo seria muito pequeno, lícito supor que o ministro esteja querendo evitar manifestações que poderiam dar margem à interpretação de que ele estaria tripudiando sobre a situação do vizinho.

Poderíamos insistir, argumentando que o Brasil jamais contou com esse tipo de cuidado por parte das autoridades argentinas. Mas seria inútil. Malan prefere enfatizar a confiança que tem na recuperação daquele país - ''em algum momento a Argentina terá de sair, e vai sair, dessa situação desesperadora'' - e lembrar que, diante do quadro, é absolutamente urgente e necessário que os argentinos obtenham ajuda financeira externa.

Malan acha que não há tempo para se cumprir o roteiro que o FMI pretende, qual seja, o de que o país faça todos os seus acertos internos primeiro para que só depois receba socorro, já devidamente credenciado para isso. ''As coisas têm de ser feitas em dois estágios paralelos'', afirma Malan, acrescentando que lá, o acerto interno depende da ajuda externa, embora concorde que valha também o vice-versa.

O problema é que, na concepção dele, não há quem possa fazer todos os consertos necessários - que vão desde o controle da inflação até o resguardo do sistema bancário, passando pela definição do câmbio e pelo ajuste fiscal - num curto espaço de tempo. Para Malan, a Argentina não precisa apenas de um bom plano econômico, mas também de uma equipe coesa e de uma consertação política geral que leve a uma coalizão capaz de sustentar Eduardo Duhalde até as eleições de setembro do ano que vem.

Não seria o caso, então, de se antecipar as eleições para tentar essa coalização sob a condução de uma liderança cuja força seja referendada pelas urnas?

Outra vez a questão diplomática impõe limites à análise mais detalhada desse aspecto, mas fica evidente que o ministro considera mais adequado a manutenção do calendário eleitoral. Isso porque pondera que talvez o ambiente de conturbação, principalmente social, não seja o cenário ideal para uma eleição.

De fato, pensando assim, a gente acaba chegando à conclusão de que, com a raiva que boa parcela da sociedade argentina manifesta por ''todos'' os políticos, não seria difícil que conseguisse chegar ao poder alguém com o velho e nefasto discurso salvacionista. Muito comum em governantes que não conseguem terminar seus mandatos e levam seus países a crises ainda mais profundas.

Mas, dando uma rebobinada na conversa, por que será mesmo que o ministro da Fazenda não acredita que o Brasil corra riscos muito sérios ante o agravamento da situação aqui ao lado, onde já se prevê uma queda de até 15% do PIB só neste ano?

''Seria ingenuidade minha acreditar que o que se passa fora do país jamais vai nos atingir'', diz ele, ressaltando, no entanto, que à medida que a situação nos Estados Unidos e na Europa melhora, e aqui dentro a economia e a política se mantêm razoavelmente estabilizadas, aumenta nossa capacidade de proteção.

Malan lembra que as relações comerciais do Brasil com a Argentina caíram significativamente (em torno de 60%, representando hoje apenas 3% no quadro geral de negócios), enquanto foi aumentado esse percentual com outros parceiros, notadamente da Ásia e do Leste Europeu.

Até a hora do almoço de sexta-feira, Malan ainda não havia falado com o novo ministro da Economia argentino, mas já externava a certeza de que o país não voltaria à política do câmbio fixo e, como o Brasil, instituiria o sistema de metas para o controle da inflação.

[28/ABR/2002]

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