Em nome do bom senso, queira Deus que o presidente do PFL, Jorge Bornhausen, tenha consciência de que fala apenas por si, quando afirma que a apresentação da lista dos alegados doadores encerra o caso do dinheiro encontrado no início de março na empresa do casal Murad.
Até porque deve ter aprendido algo a respeito de declarações tão definitivas quanto precipitadas e descoladas daquilo que pensa a nação na ocasião em que, homem forte do governo Fernando Collor, pronunciou a frase célebre: ''A CPI não vai dar em nada'', referindo-se à investigação do Congresso que resultou em processo de impeachment, seguido da renúncia do então presidente.
Na época, quando viram para onde rumava a previsão de Bornhausen, os acusados de malversarem o dinheiro público que já haviam apresentado, sem êxito, a versão das ''sobras de campanha'', também providenciaram uma ação entre amigos para se explicar. A denominada Operação Uruguai era um empréstimo que teria sido avalizado junto a bancos daquele país por dois companheiros de colégio de Collor, cuja quitação é assunto do qual nunca mais se ouviu falar.
É inevitável a comparação daquela versão com esta agora, engendrada durante 34 dias e apresentada de forma tão mal enjambrada que o próprio Jorge Murad, citado na lista como doador de R$ 200 mil, não se lembrou de referir-se ao desembolso no dia em que veio a público assumir a responsabilidade pelo dinheiro e encenar um digníssimo mea-culpa com - falsa, viu-se depois - demissão do governo dirigido pela mulher, Roseana Sarney.
Ao contrário do que imagina Bornhausen, o caso não está encerrado, não. Primeiro, porque causou estupefação geral a divulgação de uma justificativa inverossímil e, segundo, porque a Polícia abriu inquérito para apurar se os beneméritos têm fonte lícita para dispor de tais recursos e se, por eles, prestaram conta ao fisco.
Espera-se do presidente da República que não repita o que fez ao repreender seu ministro da Justiça, não se intimide diante da ofensiva ousada e acusatória do PFL para desviar o foco das atenções, e não interfira no trabalho da Polícia e da Receita Federal.
O recuo do PFL, ontem, da greve legislativa e a declaração do líder do partido na Câmara, Inocêncio Oliveira, louvando ''como ato político importante e reconhecimento de um erro'' o fato de a Polícia Federal ter desmarcado o depoimento da ex-governadora, indicaram duas evidências: uma, que os assanhados salamaleques de lideranças tucanas em direção ao partido que estava sem saída, eram desnecessários. E outra, que o Palácio caiu na arapuca montada para dar caráter político a uma investigação policial.
Um vexame sem tamanho, cujo resultado não é impossível que venha a favorecer a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva. Candidato, aliás, que com muita propriedade alertou para a possibilidade de essa crise terminar num grande acerto entre PSDB e PFL.
Depois das cenas a que assistimos na terça-feira, com líderes governistas em pleno exercício da mais pura sabujice apenas para apaziguar os faniquitos pefelistas, não será surpresa se a revolta de todos os cidadãos que vêm tendo diariamente a inteligência agredida por quem se supõe residente no Brasil de anos atrás, contaminar a candidatura José Serra.
Seria bastante bem-feito ao tucanato mais vacilante, como, de resto, seria agora bastante bem-vinda uma manifestação do candidato que, na crise, calado está, quieto pelo visto pretende se manter. Do ponto de vista técnico, pode ser a melhor estratégia, mas dificilmente seria a atitude esperada por aquela parcela do eleitorado que comprou a imagem do político destemido ante os conflitos.
José Serra, como ministro da Saúde, enfrentou laboratórios poderosos e ganhou até brigas contra o governo norte-americano. Muita gente aprendeu a admirá-lo por isso. Pois essa mesma gente há de esperar do candidato do PSDB que não se mantenha debaixo da cama, mudo, surdo e cego ao que se passa à sua volta.
Considerando que esse é um episódio onde estão envolvidos o governo que representa nesta eleição, e um partido que ainda pretende seja seu aliado, convenhamos, é no mínimo inadequado que adote a postura de quem não tem nada a ver com isso.
Pode dar a impressão de que está em cima do muro, aguardando a passagem das águas para só então descer em segurança do lado onde a maré não lhe tome os pés.
Bem comparando
Um experiente e proeminente advogado, hoje integrante do Tribunal Superior Eleitoral, comentava, ontem, numa roda brasiliense de cidadãos intrigados com os tropeços políticos, nada usuais, cometidos por Jorge Bornhausen:
''Os projetistas do Estádio da Gameleira e do Elevado Paulo de Frontin também eram considerados infalíveis, até o dia que erraram nos cálculos e suas obras desabaram.''