Nos últimos dois anos - mais exatamente desde o dia 5 de abril de 2000, quando Antonio Carlos Magalhães e Jader Barbalho escancararam à nação as entranhas do mandonismo na política -, o país vem assistindo a repetidas demonstrações de que a soberba, a ganância, a intolerância, a mentira, o erro de cálculo na avaliação de conseqüências e no poder de fogo de cada força e, principalmente, a precipitação são péssimas companheiras e piores ainda conselheiras. Vitimaram os dois e, de roldão, levaram o novato José Roberto Arruda, cuja arma que disparou contra o próprio peito foi a crença de que mais vale mentira enfática que o reconhecimento rápido da conduta errática.
Temos aí o infortúnio da governadora Roseana Sarney para demonstrar, mais uma vez, a veracidade da tese. Caiu fundamentalmente por mentir e, além disso, ainda tentar, ofendida, atribuir culpas ao alheio - sem tirar nem pôr, como a cena de Arruda às lágrimas na tribuna do Senado tirando o corpo fora do episódio da violação do painel eletrônico. Mas, graças aos avanços tecnológicos, que sustentam os progressos éticos pois democratizam os instrumentos de vigilância, cada vez mais as versões perdem terreno para os fatos.
E, sendo assim, é que cumpre lembrar a todas as excelências envolvidas no processo eleitoral - sejam elas candidatas ou não - que o gesto brusco e apressado é o pai de todos os equívocos, cuja maternidade guarda estreita relação com a conclusão apressada e definitiva. Se formos buscar as razões da oceânica quantidade de tropeços já ocorridos em todas as candidaturas desde os últimos meses do ano passado até agora, veremos que a origem deles foi a artificial antecipação da disputa.
O efeito foi o descrito por Assis Valente no samba em que se anunciava e garantia que ''o mundo ia se acabar'' e muita gente ficou arrependida de ter desfilado em ''trajes de maiô'', pegando ''na mão de quem não conhecia, beijando a boca de quem não devia'' porque depois, quando o mundo não se acabou, outros tantos andaram espalhando ''coisa que não se passou''. O resultado foi que se instalou ''muito barulho e confusão'', e ficou a lição de que, definitivamente, o sol não nasce antes da madrugada.
Ou seja, pôr a chamada carroça na frente do chamado boi continua sendo erro imperdoável. Que agora, com todos devidamente vacinados, espera-se que haja um freio de arrumação geral, e que quem desceu nas pesquisas não se precipite ao suicídio - note-se que aqui não se fala da candidatura Roseana, cuja continuidade é que representa um salto no escuro -, e quem subiu não se considere o rei da barraquinha das cocadas pretas, porque estamos apenas em março, mês a partir do qual as águas costumam rolar com mais intensidade.
E podem levar na enxurrada várias certezas, como aquelas de que Lula estava com a vida ganha, Ciro seria um tucano mais à esquerda, Garotinho tinha o perfil da novidade, Itamar a herança da estabilidade, Roseana a marca do fenômeno midiático e Serra a mala de chumbo impossível de carregar.
Pois exatamente pela rápida subida do candidato do Planalto nas pesquisas é que a prudência aconselha aos tucanos certa discrição nas comemorações e contenção no entusiasmo. Salto alto é coisa para mulher. E, considerando que nem a única representante feminina no certame conseguiu equilibrar-se em cima dele, o melhor que os vencedores da hora têm a fazer é calçar rasas sapatilhas e considerar o cenário em volta no lugar de observar o quadro de cima daquele coqueiro que, segundo Billy Blanco, quanto mais alto maior é o tombo que proporciona ao final.
Operação Curupu
A frase mais serena que a governadora Roseana Sarney conseguiu articular logo após a descoberta da dinheirama ao vivo e em cores no cofre da Lunus foi a de que ''não é crime uma empresa ter dinheiro em caixa''. Se tomarmos por veraz a versão apresentada por Jorge Murad, segundo a qual aqueles reais que somavam 1 milhão e 340 mil já eram parte daquilo que seria gasto na campanha à Presidência da República, de duas uma: ou uma governadora que se pretendia chefe de nação desconhece a lei e não sabe que a arrecadação só pode ser feita após a oficialização das candidaturas, ou a história de Murad é mentirosa e soa, de fato, a Operação Uruguai, de triste, recente e nada saudosa memória.
Alerta antecipado
Há 15 dias, quando o assunto na política era a decisão do TSE de limitar coligações, uma pessoa da família Sarney escreveu uma carta para Roseana, aconselhando-a a desistir da disputa. Se tivesse dado ouvidos, teria saído pela porta da frente.
Enquanto isso
Está para vir ao mundo um novo integrante da família Barbalho. Será o segundo filho de Jader Barbalho e sua mulher, Márcia. O casal aguarda a chegada de Daniel, muito provavelmente sob o signo de touro, para o fim de abril.