No final da eleição municipal de 2000, o PT depositou todas as suas esperanças e desesperanças da campanha de 2002, no desempenho dos prefeitos eleitos naquele ano. Pelo menos um deles, Marcelo Déda, de Aracaju, avisou que a expectativa era um erro e declarou que tinha sido eleito prefeito e não vitrinista de shopping center.
A alta rejeição do candidato Luiz Inácio Lula da Silva, medida pelo Instituto Datafolha, exatamente nas principais cidades administradas pelo PT, indica que Déda estava certo ao rejeitar a responsabilização dos prefeitos por erros ou acertos do partido no âmbito federal.
O que o prefeito de Aracaju não previu, porém - nem poderia -, é sinuca em que os petistas se envolveram no Rio, tendo como origem a malsucedida aliança, em 1998, com o PDT, na qual estava o governador Anthony Garotinho.
Que o partido de Leonel Brizola nunca deu sorte ao PT, a História já registrou. Mas, justiça se faça, Brizola, deliberada e pessoalmente, jamais montou uma armadilha como a que Garotinho pretende deixar nas mãos de sua vice, Benedita da Silva, assim que - e se realmente - deixar o governo para concorrer à Presidência da República.
Será em abril e, com precisão, o sociólogo e atual responsável pela montagem da transição em nome do PT, Luiz Eduardo Soares, definiu a situação: ''Abril está vindo na nossa direção como uma carreta desgovernada.''
Essa franqueza e consciência talvez seja o caminho certo para que o PT consiga se prevenir e evitar o desastre que se avizinha e pelo qual Garotinho anseia fortemente. Há algum tempo o governador já havia tomado e anunciado a decisão de não deixar um só secretário para ajudar Benedita na administração do Estado, enquanto dizia que, se ela concorresse ao Senado e o substituto no governo fosse um aliado, como o presidente da Assembléia Legislativa, Sérgio Cabral Filho, manteria a montagem do governo intacta.
Ou seja, de boas intenções é que o governador não está com o PT. Sabe que o Orçamento está blindado pela Lei de Responsabilidade Fiscal, tem consciência de que os melhores quadros petistas não poderão integrar o governo - pois também disputarão eleições -, e acredita que essa conjunção leve Bené a um governo no mínimo medíocre. O suficiente para não apenas ressaltar comparativamente as vantagens do anterior, como também para atrapalhar a vida de Lula, levando em consideração aquela idéia de fazer das administrações petistas vitrines reluzentes da campanha presidencial.
Ora, se o plano der certo e juntarmos isso à rejeição de 37% de Lula em São Paulo - boa parte dela atribuída à gestão de Marta Suplicy na prefeitura -, o quadro será péssimo para o PT em dois dos maiores colégios eleitorais do país.
Pode-se até discutir o que achará o eleitorado de um governador que dá prioridade às picuinhas políticas em detrimento do destino do Estado. Mas esta é outra história que também implicaria inocentar completamente o PT na briga com Garotinho e na estratégia de forçar Benedita, que queria o Senado, a assumir e disputar o governo.
Mas a questão já não é mais o que poderia ter sido, mas o que já está feito. E esse cenário Luiz Eduardo Soares mostra que enxerga com nitidez, ao fazer a imagem da carreta desgovernada.
Nessa altura, ao perceber com clareza o jogo, o PT pode agir preventivamente, tanto na escolha do tipo de administração, quanto na montagem de uma aliança política qualquer que não deixe o partido isolado.
A bomba de efeito retardado montada por Garotinho será mais poderosa se o PT sofrer ataques de outras áreas. Já se fala em conversas de Benedita com Cesar Maia e com Marcello Alencar, do PFL, e do PSDB, adversários na campanha presidencial.
Mas fato é que, os tucanos talvez não sejam aliados tão difíceis assim de conquistar. De amores pelo candidato de Cesar Maia, Eduardo Paes, não morrem. Acham o rapaz muito verde. E, a respeito do próprio candidato do PSDB, José Camilo Zito, há dois problemas: a péssima imagem do prefeito de Caxias na cidade do Rio de Janeiro e a disposição do próprio de trocar o certo pelo duvidoso.
Quem sabe por aí - já que os tucanos preferem Lula no segundo turno e não têm interesse em incensar Garotinho - o PT consiga se desviar da rota da carreta desgovernada nos idos de abril.
Afinal, a pólvora
Os conselheiros da comunicação do Planalto descobriram, afinal, a pólvora e avisaram ao presidente da República que a população não consegue entender quais foram mesmo os benefícios e em que rumo este governo pôs o Brasil.
Em boa medida, culpa de suas sapiências governamentais que passaram a maior parte desse tempo convencidas de que estavam fazendo o bem, o que dispensava explicações.