''A predominância avassaladora da indústria cultural norte-americana'' em nosso meio, citada por Emir Sader no seu artigo de ontem, pode ser interpretada como uma prova, um tanto acaciana, de que prevalece sempre o veículo que melhor se comunica com a massa da população. O futebol, introduzido no país no começo do século passado pelo engenheiro inglês, da antiga São Paulo Railway, Charles Miller, foi visto por intelectuais como Guimarães Rosa como nefasto à ''cultura nacional'', com a qual não possuía nenhuma afinidade. Porém, quando se ''digere'' qualquer influencia externa de forma apropriada, ela nada tem de maléfico, desde que bem aculturada (transformada) pelas massas. A cultura francesa, a ópera italiana, a ciência e a filosofia alemãs, e o senso prático do
business britânico, que tanto impressionaram os nossos avós, destinavam-se a uma elite intelectual, artística, científica ou comercial. Tais influências, culturalmente benéficas, não criaram raízes porque não tínhamos, como ainda não temos, um ensino fundamental de boa qualidade para toda a população, não apenas para uma elite. É a partir daí, de uma base sólida, que um país se afirma culturalmente.
João Paulo Rios, São Paulo.
Aborto
O JB, como indispensável instrumento de comunicação, nos permite que notáveis especialistas em saber jurídico possam expor de forma inteligente suas posições, como nos artigos sobre o aborto, dos advogados Ives Gandra Martins (15/07) e Fernando Orotavo Neto (18/07). O brilhante advogado Fernando Orotavo Neto, do ponto de vista doutrinário e sobretudo ''pragmático'', atingiu o cerne do problema. Aquelas mulheres que passaram por toda essa ''via-crúcis'', e que têm o discernimento de não confundir religião com fanatismo, sabem o que representa o respeito à dignidade da pessoa (Constituição, art. 1º ,III).
Erivaldo Santos Correia,Rio de Janeiro.
Quanto à questão do direito ao nascimento de um anencéfalo, entre o artigo do Dr. Ives Gandra, que apela para o emocional, e o artigo do Dr. Fernando Orotavo, de caráter racional, fico, sem a menor dúvida, com o segundo. Entendo que cabe apenas à mulher ou ao casal a decisão sobre o aborto, os quais devem receber todo o apoio legal favorável possível. Quanto à Igreja, acho que deveria se manter ao largo dessa questão e buscar com Deus, onipresente e onipotente, explicações para os seus fieis sobre como pode permitir a geração de aberrações dessa natureza. E a ciência, que ainda não se manifestou sobre o fato, que faça também a sua parte.
Eduardo de Braga Melo,Niterói.
A verdadeira avalanche de opiniões, de origem diversa, suscitada pelo polêmico tema do abortamento em feto anencefálico, sobre o qual já tive oportunidade de me posicionar nesta grata seção, leva automaticamente à necessidade de amplo debate, em que seriam convidados a opinar e dar depoimentos a Igreja, juristas, médicos, o Conselho Regional de Medicina, mulheres e familiares que vivenciaram o drama, de modo a clarear e enriquecer o assunto, capaz de mobilizar apaixonadamente a sociedade, aparentemente pouco informada sobre o caso, por pouco freqüente.
Marcelo Frick,Rio de Janeiro.
Em discussões sobre o aborto, como a que se dá atualmente, percebe-se que grandes tolices são ditas por quem privilegia a religião ou o feminismo, dependendo do lado que toma, em lugar do humanismo. Por um lado, o desconforto físico e psicológico de mulher nenhuma (nem mesmo vítimas de estupro, ao contrário do que ainda diz a lei brasileira) pode se sobrepor ao direito à vida. Em contrapartida, falar desse direito quanto a fetos com anencefalia, que absolutamente não têm possibilidade de viver, é nada mais do que sadismo voltado às gestantes. Aborto é assassinato, mas seus defensores acabam terrivelmente fortalecidos quando gente como o procurador-geral Cláudio Fonteles e o advogado Ives Martins empregam argumentos em que a fé dogmática toma o lugar do bom senso.
Hugo Dart, Rio de Janeiro.
Paciência
Esta semana o presidente Lula, mais uma vez, pediu para a população ter ''paciência de mulher'' com o governo. Com certeza, referia-se à paciência das mulheres do início do século XX, porque o dinamismo da mulher moderna não lhe está permitindo essa paciência de outrora. Acredito que o povo brasileiro esteja disposto a aceitar mais esse pedido do presidente, desde que a equipe de governo esteja disposta, a exemplo das mulheres, que trabalham com salários inferiores aos dos homens, a dedicar-se com afinco às suas tarefas em dois ou três cansativos e consecutivos turnos diários, ou, num exemplo mais forte, como as pacientes donas de casa que trabalham de sol a sol, sem salário.
Heitor Godinho,Rio de Janeiro.
Reajuste
Até que enfim saiu reajuste anual de 10% para os funcionários militares ativos, inativos e pensionistas. Nada a comemorar, pois já era para estar em vigor desde janeiro de 2004. Só não deu para entender por que Lula e o PT insistem em discriminar servidores civis, aposentados e pensionistas, já que para estes não se deu o reajuste linear previsto na Constituição. Querem empurrar, a eles, goela abaixo ''gratificações'' maiores para os ativos e menores para os inativos. Será que a inflação e o aumento do custo de vida são menores para os funcionários aposentados e pensionistas civis? Ou se pretende jogar mais essa trapalhada no colo do Poder Judiciário?
Edson Ribeiro,Belo Horizonte
Quando se mencionam os gastos com pessoal nas Forças Armadas, não é dito que essa área é muito diferente do funcionalismo civil. Na área militar, as despesas de pessoal abrangem outros que não os militares de carreira. Um exemplo são as chamadas pensões especiais de ex-combatentes, cujo valor é o de uma pensão militar de segundo-tenente. Essa é uma despesa para a qual não houve contribuição. Já o militar contribui, mesmo na inatividade, para a pensão militar. Uma outra despesa é com os conscritos, os quais prestam o serviço militar obrigatório. As despesas com ex-combatentes e conscritos não podem ser consideradas quando se fala propriamente em ''pessoal militar''. As pensões de ex-combatentes deveriam estar vinculadas ao Ministério da Fazenda.
Heitor Vianna P. Filho,Araruama (RJ).
Filipinas
A presidente das Filipinas, Gloria Macapagal Arroyo, foi chamada de ''dama de ferro da Ásia'' quando somou tropas de seu país às forças americanas que ocuparam o Iraque. Agora, para salvar a vida de um caminhoneiro filipino refém dos nacionalistas iraquianos, retira seus soldados e é tachada de ''fraca e vacilante''. Teria evitado o dilema cruel, se tivesse ouvido a voz das ruas: ''pesquisas de opinião mostraram que o povo se opunha ao envio'' das tropas, como informa o JB de sábado, na página A8.
Adelmar Gitirana, São Paulo.
Chile
Foi o Imposto de Renda, como se sabe, que afinal conseguiu punir Al Capone, o modelo do capo de gangue que comprometeu para sempre a imagem da cidade de Chicago. Parece que teremos agora uma espécie de repetição dessa ironia: pela via torta das contas secretas no exterior, o Chile poderá enfim acertar contas com o seu algoz da tenebrosa ditadura, o até aqui impune general Augusto Pinochet.
José Carlos Mendes,Rio de Janeiro.
Técnico e time
E o técnico Abel pediu demissão do Flamengo. E o novo técnico, o que terá à disposição? O mesmo time?
Panayotis Poulis,Rio de Janeiro.