Adauto Novaes, mestre em organizar eventos a que não assisto, mas que me deixam morrendo de inveja de quem vai, produziu esta semana o Congresso Internacional do Medo. Fico com vontade de pedir que no próximo encontro ele crie um intensivão para um sábado e domingo, imagino que outras pessoas gostariam de participar desta universidade aberta do pensamento contemporâneo. Mas, olhando os temas, senti falta de alguém falar do medo que temos de nós mesmos, o velho medo de sentir. Fiquei cabreiro, será que não existe mais?
Sempre achei que a síndrome do pânico fosse um exemplo atual deste antigo temor. Quando a doença apareceu, veio junto com um remédio que me soava a advertência, chamava-se Urbanil, o nome mais bandeiroso que um laboratório já produziu. Com Urbanil, você voltaria ao ser urbano equilibrado e cumpridor de suas tarefas que todos esperam que seja. O discurso médico vive dando a certeza de que tomando o remédio certo, e desde que você não atrapalhe, se recupera o controle sobre o corpo e as sensações, perdendo, inclusive, o maior dos medos, o de estar vivo. Senti falta de um título que falasse disso, do medo de estar vivo.
Medicinas alternativas, acupunturas, terapias genéticas, a humanidade sofre da eterna luta pelo controle do que lhe passa por dentro. O velho Sócrates já dizia que as sensações atrapalham o pensamento do filósofo. Pensar e sentir sempre foram duas tendências difíceis de acomodar. Bicho que virou cultura, o ser humano nunca se conformou ao fato de que dentro dele a natureza continua existindo e exigindo ser ouvida. A psicossomática, que considerava o corpo e a mente como um sistema entrelaçado, vai sendo empurrada para escanteio, dando lugar ao sonho da neurociência e dos corpos moldados na rigidez da malhação. No fundo se parecem. O objetivo é o mesmo, dominar os sentimentos que nos afetam e os corpos que se descontrolam. Então, a alma humana, captada em cores por alguma máquina e mapeada sob forma de neurônios e conexões, finalmente submetida, ficará livre do medo de perder o comando sobre o corpo, a vida e o acaso. Enfim, viveremos tranqüilos.
Existem pessoas que sentem o ataque de pânico quando, por alguma razão, o coração dispara emocionado, quebrando o ritmo dos acontecimentos. Num salto súbito, o órgão adormecido anuncia que a vida resolveu falar mais alto. Poesia concreta feita de carne, nervos e sentimentos. O anúncio de que alguém espreita sob a pele, esperando uma oportunidade, desencadeia temores que se traduzem em suores e paralisia. Parar. Nessas horas é preciso parar tudo para que a força que desperta não se liberte e saia por aí fazendo coisas que não devia. Sem movimento, a desistência de viver anuncia que ficou perigoso demais continuar. Afinal de contas, o medo também protege. Num mundo de exigências infinitas, quando o eu não agüenta mais, ele acaba rachando. Abertas as comportas, como numa pororoca que retorna, as emoções vêm à tona arrastando as margens que domavam o rio. Nessas horas é que percebemos o quanto somos habitados por uma força descomunal, um desorganismo que quando mostra a cara mete medo.
Um bom domingo.