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Jogo da Paz


Esperança é palavra perigosa. No seu miolo o caroço da espera faz lembrar que é melhor sentar porque em pé cansa. Pela reação à coluna passada, fica claro que a espera sem ação está saindo de moda. Os desesperados, ou seja, aqueles que não esperam sentados olhando para o céu ou para o planalto central, acabam sendo os verdadeiros porta-vozes das possibilidades de mudar o grande jogo de cartas marcadas em que nos meteram. Vários jogadores do Jogo da Paz mandaram suas cartas e eu, espremido entre a vastidão da minha alegria e a estreiteza do espaço da coluna, vou tentar conversar sobre elas. Entre Nós, como sabem os que me acompanham desde o início, quer construir um boteco virtual onde possamos trocar idéias.

Liliana Pellegrini mandou sua Conversafiada, um sonho-jogo com nome e tudo. Com vocês, Liliana e sua conversa afiada. ''Haveria encontros sem debate ou discussões estéreis... teriam apenas uma regra. Qualquer assunto seria admitido... os presentes se en- contrariam para discutir os prós em um dia e em outro os contras, sem a necessidade de um terceiro encontro... não estaria sendo visada nenhuma conclusão. Só uma abertura da mente: a vitória... ver um mesmo assunto por diversos ângulos. Fiada sim, afiada para quê? Se meu sonho servir para a paz... ótimo!''.

Serve, e muito, embora seja a regra mais difícil de cumprir. Trata-se da arte de evitar a mãe de todos os enganos, a certeza. Nossas conversas são inevitavelmente conduzidas por nossos padrões mentais, experiências emocionais e histórias que ouvimos e repetimos como verdades acabadas. Somos pensados por nossos hábitos imaginando que somos livres. Se pudéssemos ao menos praticar o esforço da abertura da mente, as possibilidades do mundo seriam enormes. A proposta traz também um aspecto lúdico maravilhoso. Não buscar a conclusão transforma o debate em brincadeira, tira de nós o chapéu de adulto que carregamos e nos devolve a alegria infantil que ensina a infinita riqueza dos jogos. Seja com palavras, seja com objetos que se transformam a cada momento oferecendo novos sentidos, a criança aponta para as inúmeras possibilidades do mundo que o adulto pensa acabado e fixo. Enquanto isso, presos às regras do poder e às amarras da certeza, nós, adultos, vamos tratando de seduzir, induzir, conquistar e em última análise, destruir os nossos oponentes.

Eva, leitora do JB virtual, pede por nós na Terra Santa de onde escreve, enquanto aqui, nos confins do Ocidente, estamos cercados de pessoas que parecem entender tudo que se passa por lá: ''Que seu sonho possa tornar-se realidade. Quando penso em dormir, ainda visualizo cenas de terror que, se não fossem realidade, poderia ser dito... são efeitos especiais. A terra está empapada de sangue. Alevai, alevai, alevai (tomara) que seu mapa de paz, seu sonho, seja o início de uma nova consciência aqui e aí também''. Um amigo viajado diz que a única discussão que faz as pessoas perderem a cabeça é o Oriente Médio. Como Saramago, intelectuais costumam achar que, mesmo à distância, tudo sabem. Diferente deles, em sua dor que busca o equilíbrio que um escritor do porte do Saramago não sabe expressar, Eva pede uma nova consciência mundial, pois entende que também no Brasil ''a terra está empapada de sangue''. Amém.

Dow, um leitor que começa cético quanto às possibilidades da paz, acaba emocionado ''... me leva para o teu sonho. Eu também quero sonhar. Preciso''. Queremos todos, meu caro Dow, por isso escrevemos artigos e trocamos cartas através deste mar virtual da internet, para manter o sonho acordado.

Ao Sr. Saramago, prêmio Nobel de literatura, prefiro a esperança ativa de Liliana, Eva e Dow, pessoas que buscam diálogos, novas consciências e a necessidade do velho hábito de sonhar a vida. Continuem jogando e escrevendo.

Um bom domingo.


[26/OUT/2003]


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