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O mapa da paz


Passei o fim de semana na serra curtindo o invernico de setembro. Influenciado pela luminosidade das estrelas, aconchegado pelo vinho e pela conversa, dormi neste santuário de tempo onde tive um sonho digno do zum- zumzum noturno dos insetos da mata próxima. Resolvi contar o sonho aos meus leitores e quem sabe do outro lado do mar de letras alguém pesca esta gar- rafa e me envia uma interpretação. Afinal, um sonho não interpretado é como uma carta não aberta.

Na casa do casal C., onde eu era tão bem acolhido, havia um JB do sábado anterior. Fui reler dois artigos escritos por Mestre Dines e Mestre Konder. Dines falava dos pilotos israelenses que se recusaram a cumprir ordens que colocassem em risco a população palestina civil. Konder nos mostrava o mundo dos vencedores compulsivos, onde não existe lugar para gratidão, saudades, elegância. Reli, admirei o vigor e a beleza das idéias e dos textos. Enquanto me deitava sob as cobertas na noite fria, me peguei matutando que, sem a gratidão e a elegância, o perdão e a compai- xão desaparecem do mundo e nada de novo se cria. Mestre Konder tem razão, precisamos valorizar os que têm a coragem de perder e de pular fora da religião do pódio, de abandonar o caminho da vitória a que se chega sem importar por que atalho ou propinoduto.

Adormeci pensando, e a alma, livre das amarras do corpo e da razão, me leva para um deserto onde vejo três homens sentados em círculo. Reconheço Dines, Leandro Konder e Emir Sader. Eles falam e anotam com longas penas sobre um pergaminho estendido. Quando a ponta fica seca, molham a pena num tinteiro Parker Quink que flutua em mãos invisíveis. Respondendo ao que estou pensando, apontam para o tinteiro - e aí me parece absolutamente natural que o tinteiro flutuante tenha este nome - e esclarecem que o Vieira vai ficar encarregado de espalhar a boa nova pelo mundo, o entusiasmo dos três é contagiante.

O texto diz que, para cada soldado ou piloto israelense que tenha se recusado a cumprir a tarefa de guerra, um homem-bomba palestino convoca a imprensa e no lugar de explodir-se tira a roupa e despe o cinturão. Para que não caia no esquecimento, todos os dias e por tempo indeterminado, a notícia é martelada nos meios de comunicação. Enquanto leio, eles me interrompem e contam o que será o resultado de suas propostas. Noto que as letras escritas no pergaminho vão ganhando vida sobre um cenário de areia que não pára de se transformar. Tudo o que dizem vai apare- cendo na areia móvel. Vejo os militares e os homens- bomba percorrendo juntos cidades israelenses e pales- tinas onde falam para multidões crescentes. Mais mili- tares e homens-bomba aderem, o movimento aumenta dia a dia até que acabam as hostilidades. Sobram de fora Arafat e Sharon, mas eles são vistos caminhando em direção ao deserto dando tapas um na cara do outro. Não fica claro se são amantes ou inimigos.

Acordo bem-humorado e vou descendo a serra pensando em como aplicar o mapa a esta nossa terra onde a boa intenção das vacas gordas contrasta há tempos com as vaquinhas magrinhas da ação real. Pensando nestas coisas, resolvo lançar o jogo do Mapa da Paz. É o jogo de produzir encontros que possam mudar nosso destino se cada um dos lados abrir mão de algo. Vale também para relações, ou até para as tendências pessoais de cada um. Um jogo em que se esforçar para vencer vale a pena porque ganhamos todos. Diferente do bingo que anda vician- do senhoras aposentadas, não produz efeitos colaterais nocivos - quanto mais dependente, mais livre a pessoa se sente. A regra básica é elegância e compaixão, quem acumular mais encontros ganha. Basta reler o sonho e montar a brincadeira. Se alguém se animar, escreva, que gente publica no próximo Entre Nós.

Joguem bastante e bom domingo.


[12/OUT/2003]


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