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Carta aberta aos candidatos


Caros pretendentes às prefeituras em todo o Brasil ou a uma cadeira nas câmaras municipais, seguem pedidos de um eleitor:

Costuradas as alianças Frankenstein - quem ousou imaginar Roberto Jefferson aos prantos ao lado de Marta Suplicy, Luiza Erundina aos sorrisos com Quércia e Michel Temer, Lindberg abraçado ao PFL ou Jorge Bittar convidado a dar entrevista ao lado da filha do presidente do PTB, até a véspera funcionária da Prefeitura do Rio, cumprindo aquele papel ''porque papai mandou''? - esperamos atitudes mais nobres.

Em primeiro lugar, não emporcalhem as cidades. Não gastem fortunas em panfletos e galhardetes. Lembrem-se de que quanto mais propaganda espalhada, mais explícita fica a suspeita de abuso de poder econômico. E faz menos sentido imaginar quem possa gastar tanto para se eleger a um cargo cujos ganhos não pagam tamanho investimento. A não ser que...

Que os pretendentes a prefeito lancem propostas para as respectivas cidades, tendo em mente que os eleitores não são transitórios - como a filiação itinerante a partidos - e estão e estarão naquele município muito além de qualquer mandato. Apresentem projetos de curto prazo, factíveis em uma gestão, mas apontem para o futuro. Ninguém suporta mais ouvir a ladainha ''saneamento, saúde, educação'' e, no caso do Rio de Janeiro, ''segurança'' como mote de campanha e, assumidos os mandatos, tais ''prioridades'' sejam desprezadas.

Lembrem-se de que concorrem a cargos municipais. Federalizar a campanha, seguir na linha do julgamento do governo federal pode valer para alguns candidatos que lançam seus nomes apenas para marcar presença no cenário político. Mas o eleitor está atento à realidade que o cerca e há de cobrar ações que tirem sua cidade de rotas de decadência ou desagregação por omissão do executivo local.

Quem almeja chegar à prefeitura deve informar claramente o que pretende dentro de sua área de ação e como irá integrar as várias esferas envolvidas em determinados problemas. Na edição de ontem deste Jornal do Brasil, o arquiteto Romay Garcia ensinava que disciplinar a ocupação do espaço urbano é função da prefeitura; que combater o contrabando é atribuição da Polícia Federal; que fiscalizar quem usa os camelôs para não emitir notas fiscais é dever do Estado. Portanto, há soluções possíveis para a proliferação da camelotagem nos grandes centros urbanos. Desde que se combata com menos bravatas ou bordoadas dos guardas municipais.

Os candidatos a vereador devem saber em qual categoria se enquadrarão: os que têm um projeto político, os que circunscrevem sua ação à própria base eleitoral ou os chamados apáticos. Lamentavelmente, há cidades de mais de 500 mil habitantes em que esta terceira categoria predomina.

O eleitor é um cidadão em evolução. Cada vez mais consciente de que a ação política não se restringe a registrar o voto na urna eletrônica, mas fiscalizar os representantes que elegeu. O cidadão não suporta mais saber que a Câmara do Rio sancionou ou promulgou, desde o início do ano, 105 leis. Destas, 64% referem-se à mudança do nome de ruas ou órgãos públicos, à declaração de utilidade pública de entidades ou imóveis (o que resulta em benefícios fiscais e menos arrecadação do município), à criação de datas festivas e à concessão de títulos honoríficos. Para o cidadão, muito pouco.

As eleições deste ano são mais um passo na escalada da consciência de que uma sociedade mais justa e um país com perspectivas passam pela interação entre os representantes eleitos e quem garantiu a eles uma vaga no Executivo ou no Legislativo. Nos recentes anos de vida democrática, desde o fim do regime militar, os cidadãos brasileiros compreenderam que jogam com seu futuro ao atribuir a diferentes perfis de candidatos o poder de decisão.

De mais a mais o eleitor aprende a diferenciar o demagogo do populista, o aproveitador do que tem consciência do bem público, o sonhador do realizador, o decente do desprovido de ética. Que venha a campanha, a partir de amanhã.

Impunidade

Relatório da Holanda Engenharia, de 2001, apontava problemas na barragem na Paraíba, que se rompeu em 17 de junho e matou sete em Alagoa Grande. O laudo, ignorado há mais de um ano, apontava problemas na estrutura. A inundação das galerias da represa foi constatada um mês antes do desastre. Até agora ninguém foi punido.


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[05/JUL/2004]


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