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''Maio verde'', o mês das fardas


A agenda do ministro da Defesa, José Viegas, e da governadora do Estado do Rio, Rosinha Matheus, inclui um encontro hoje para que os Poderes federal e estadual avancem além do disse-que-disse que não leva a nada e efetivamente façam alguma coisa de concreto pelo restabelecimento de parâmetros de civilidade na segurança pública do Rio.

Caberá às Forças Armadas não montar cenários em esquinas movimentadas, com tanques, carros de combate e homens fardados a fingir que vivemos em uma cidade sob controle. A missão é usar oficiais do setor de inteligência no desarmamento dos traficantes. O único registro de produção de armas no Estado são estoques e estiletes nos presídios, peças toscas de metal transformadas em facas e lanças, usadas em rebeliões internas para ameaçar guardas ou trucidar bandidos de facções rivais. A sopa de letras que acabou invadindo a intimidade do carioca - HK, AK, FAL, AR-15 - é o alvo. Justamente para que possamos deixar de sê-lo.

Um cidadão mais cético diria que não é o caso de inteligência, mas de bons ouvidos. Qualquer força de segurança nos bairros vizinhos a uma favela em que atue alguma das coligações do tráfico de drogas haverá de ouvir, de dia ou à noite, rajadas e tiros esparsos que um bom armeiro saberá identificar de onde partem e qual é o calibre.

As divisas estaduais, o oceano que banha a cidade, a impunidade que rege as águas da Baía de Guanabara são caminhos fáceis para alimentar esta legião de jovens cada vez mais inconseqüentes no manejo de armamento pesado.

Hoje faz exatamente 31 dias desde o início da chamada guerra da Rocinha, que explodiu na Sexta-Feira Santa. Um dos traficantes, o que dominava o morro, foi morto pela polícia. O outro, que começou a batalha ao tentar invadir um território que já dominara, está escondido em alguma das dezenas de favelas em que o poder público não tem acesso, ainda que o cerco policial anunciado, a essa altura, tenha se transformado em torniquete. O Exército pode vir a considerar este elemento uma arma letal e, entre suas funções no Estado, tratar de neutralizá-lo.

Mas Swats, Rambos ou PQDs não bastam para resolver a questão. Por mais tempo que permaneçam aos olhos dos cariocas, principalmente dos que sobrevivem em barracos e becos por onde circula este arsenal ilegal.

Desarmar o tráfico inclui mudar a qualidade da polícia no Estado. Há trigo no meio do joio? Certamente. Mas em número insuficiente para que a população confie e respeite quem deveria lhe sugerir segurança. Extorsão, corrupção, abuso de poder e conivência são alguns dos crimes que qualquer um é capaz de citar. Como vítima ou conhecedor de fato ocorrido com alguém próximo.

A governadora, que não pode pagar aos policiais um salário decente - semelhante ao que ocorre com o presidente da República em relação ao salário mínimo - sugere a oficialização do bico (segundo emprego para os íntimos). Os policiais, civis e militares, atuariam fardados (embora os primeiros não as usem). Mais: no outro emprego não poderiam utilizar armas oficiais. A uma oficial contrapõe-se outra... ilegal? A polícia de Nova York instituiu o bico. Oficialmente. Quem quer segurança privada confiável, eficaz e que imponha respeito, solicita o serviço ao NYPD, ou Departamento de Polícia de Nova York. Este cede a tropa em troca de pagamento com nota fiscal, que vai para os cofres públicos e retorna em benefício da instituição. Aqui, são comandantes de batalhão e delegados que se locupletam com dinheiro privado, ora montando empresas de segurança com um laranja ou testa-de-ferro à frente, ora usando tropa regular para garantir a paz de quem tem, digamos, $uce$$o suficiente.

Não será neste ou nos próximos dois governos que teremos uma polícia decente. Muito menos esta operação das Forças Armadas vai acabar com o crime organizado nos morros. Isso é trabalho para muito mais tempo.

O sinal de que chegamos perto do estado mínimo de civilidade será num dia como hoje, quando uma reunião entre ministros e o governo do Estado possa acontecer em uma sala no Largo do Boiadeiro, na Rocinha, diante de uma população que a essa altura já saberá o que é viver sem a ameaça de um tiro na próxima esquina. Da polícia ou de bandidos.


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[10/MAI/2004]


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