Já tomei sopa de entulho no Morro de São Carlos, ao som da Velha-Guarda da Unidos de São Carlos (hoje Estácio de Sá), ouvi reivindicações dos moradores no topo do Salgueiro, assisti a shows da Banda Black Rio (a original) na quadra do Vidigal e ajudei uma amiga a fazer a mudança carregando móveis pelas vielas do Turano. Tudo isso há 20 anos. Pois há duas semanas, a convite da prefeitura, fiz um
city tour em Acari. Oportunidade para o contato direto com a miséria e a percepção de que ''esperança'' tem o mesmo significado para nós e para eles.
O que não acontece com ''promiscuidade''. Percorrer os becos e as vielas da Vila Rica de Irajá - que abriga 8.000 domicílios e 32 mil moradores, somada ao Parque de Acari e à Vila Esperança - significa tropeçar em barracos, invadir sua privacidade com os olhos ou, às vezes, meio corpo, sem que os moradores se choquem. Estão acostumados, empurrados que foram para esta sobrevivência em limites que desconhecemos.
Até a elaboração do Plano Diretor da cidade, há dez anos, este grupo de favelas era uma mancha em branco nos mapas oficiais. Este e outros complexos ignorados pelo poder público tornaram-se gigantes e, aos olhos das autoridades, inadministráveis. Vila Rica é dominada pelo cheiro forte do esgoto a céu aberto. Algumas vielas já ganharam encanamento subterrâneo e calçamento, parte do Programa Favela-Bairro. Em outras ainda há canos de PVC trespassando muros, dos quais mina o esgoto que se mistura à terra em uma pasta fétida sobre a qual os moradores jogam pedras, tijolos e tábuas velhas, improvisando pinguelas para não sujar os pés.
Isso é fruto da cegueira de dezenas de gestões federais, estaduais e municipais. Não data de agora a ocupação de terras públicas ou privadas, sem qualquer infra-estrutura, à revelia da sanidade. Nestes bolsões, o Índice de Desenvolvimento Humano é ficção. As crianças, que não se esmeram em andar sobre as tábuas improvisadas em passarela, vivem doentes. As escolas públicas ao redor registram com regularidade epidemias de sarna e outros males causados pela falta de saneamento básico.
Nas escolas ou vilas olímpicas públicas, a primeira visita faz com que muitas crianças perguntem, curiosas, o que vem a ser a peça de louça que ornamenta os pequenos gabinetes dos banheiros. São apresentados, pela primeira vez na vida, a um vaso sanitário. E estes são aqueles que têm a sorte de sair do labirinto de becos e freqüentar uma escola.
Outros ignoram esta possibilidade para se associar, no caso daquela comunidade, ao TCP, ou Terceiro Comando Puro, que domina o tráfico de drogas local. No dia da visita, avisados por servidores municipais que jornalistas transitariam por ali, mantiveram no trajeto apenas olheiros desarmados. Cena rara em dias normais. Mesmo para eles, há uma distância abissal entre dominar um conglomerado plano limitado pelo acostamento da Avenida Brasil e uma favela como a Rocinha, de topografia completamente diferente e vista para o mar. A única coisa que os aproxima, além das siglas das facções do tráfico, é a falta de perspectiva.
O Rio que não vê de perto a estátua do Cristo Redentor tornou-se uma grande favela, um complexo de miseráveis sem saúde ou educação, que ajuda a perpetuar no poder gente que não tem por eles o menor apreço. E só se lembra deles nos espasmos pré-eleitorais para prometer o que poucas vezes cumprirão. Faz-se, aqui e ali, alguma coisa. Mas nada que mude a perspectiva de vidas à margem das políticas públicas.
É esse cenário que favorece o domínio do tráfico. Na falta de lei, prevalece a do mais forte. Quem entra para as gangues sabe optar por uma vida curta e uma eternidade sem perspectiva. A cachaça vendida nas biroscas, que proliferam como coelhos - a exemplo da população, que se multiplica sem controle, orientação ou prevenção -, acaba substituída pela cocaína malhada, que consome mucosas nasais e vidas.
Enquanto a elite social e política das metrópoles só olha para esta população quando seu braço armado arranca a vida de alguém próximo, interrompe seu caminho ou acaba com uma noite de sono com rajadas de armas ilegais, só faz aumentar o fosso que os separa. E no qual brota a escória que nos amedronta.
Não há outro meio de moradores decentes do asfalto ou dos morros e das planícies da cidade se livrarem dos fuzis apontados para a cabeça, que armam quem abriu mão do futuro.
Quanto à Rocinha, a guerra mal começou.