O noticiário da semana passada foi perigosamente pontuado por uma sucessão de notícias que só fazem arrepiar quem as transmite e as recebe. Nosso dever é preservar a verdade. Nem sempre, no entanto, as versões dão a real dimensão daquilo que se passou. E o registro de um acontecimento acaba por se transformar, depois, na conivência inocente com uma mentira. Isso é grave.
No dia 5 de março de 2002, diante do crescimento do número de rebeliões de detentos ligados a um grupo criminoso formado dentro dos presídios de São Paulo, houve uma ação cinematográfica. Eram 12 presos dentro de um ônibus que, supostamente, iriam assaltar um avião. Emboscados por policiais do Grupo de Repressão e Análise dos Delitos de Intolerância depois de passarem por uma praça de pedágio, foram dizimados. Parecia uma ação eficaz. A chamada inteligência da polícia teria interceptado informações e evitado o assalto. Pois o Ministério Público denunciou 53 policiais que participaram da ação por homicídio triplamente qualificado, abuso de autoridade e violação do dever. Não havia avião, não haveria assalto. Dois presos, cooptados, convidaram os 12 para a execução, todos com tiros na cabeça.
No Rio de Janeiro, a mais longa rebelião em um presídio já registrada no Estado deixou em cativeiro, por mais de 70 horas, 47 reféns sem água, comida e produtos de higiene. Uma tentativa de fuga frustrada deu início ao martírio. O acordo para libertá-los incluiu a proibição de que agentes penitenciários voltassem a controlar o presídio. Os presos temiam represálias, pois um agente, Luiz Cláudio Lima Bonfim, morreu ao conter a fuga. No momento em que o governo do Rio concordou com essa imposição, deu razão aos presos. Admitiu não ter o poder de controlar os agentes e que estes poderiam, sim, se vingar da morte do companheiro. Outra reivindicação atendida garante que nenhum dos líderes da rebelião será transferido. Livravam-se, assim, de cumprir o Regime Disciplinar Especial, que os impede, entre outras coisas, de receber parentes.
Na quinta-feira, o mundo soube, pelo jornal americano The Washington Post - o mesmo que levantou o caso Watergate e derrubou Richard Nixon -, que o peru exibido pelo presidente George Bush no aeroporto de Bagdá, no Dia de Ação de Graças, era falso. A imagem do sorridente presidente americano não passava de jogo de cena durante a viagem clandestina. A foto, que parecia um fato inquestionável, foi exibida em jornais de todo o mundo. Ninguém sabia que engolia uma bem arquitetada encenação.
Num mundo com a verdade sendo tratada de forma tão leviana, com sinais trocados, outro contraste foi o comportamento do poder público diante da venda de produtos piratas e contrabandeados nas maiores metrópoles brasileiras, Rio de Janeiro e São Paulo.
Na quarta-feira, no Rio, um guarda municipal, Marco Aurélio Ferreira dos Santos, de 32 anos, pai de dois filhos, foi morto à queima-roupa. O acusado do assassinato é Edmilson Lima Pereira, um camelô de quem Marco Aurélio havia recolhido, três minutos antes, CDs piratas. A primeira vítima de uma guerra que já teve 48 confrontos no Centro do Rio e restrita a refregas inúteis entre a Guarda Municipal e os camelôs.
Atitude diferente teve o governo do Estado de São Paulo. Na quinta feira, 200 policiais do Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado deram cobertura a 400 fiscais da Secretaria Estadual de Fazenda em uma blitz na Galeria Pagé, conhecido ponto de venda de mercadorias contrabandeadas no Centro da capital paulista, um misto da Saara com o camelódromo da Uruguaiana. Foram apreendidos 750 mil quilos de mercadoria, entre CDs, tênis, relógios, guarda-chuvas, produtos eletrônicos, óculos e brinquedos. Mais de 300 pessoas foram detidas para depor em processos sobre contrabando e falsificação.
Diante disso o carioca imagina o porquê de a secretaria correspondente no Rio não montar uma ação semelhante. Mas imediatamente ele se recorda que há quase um ano foi apresentado ao Caso dos Fiscais, em que a figura mais proeminente era Rodrigo Silveirinha, um quadro do alto escalão da Secretaria Estadual de Fazenda, acusado de comandar o desvio de verbas e o envio de mais de US$ 30 milhões para contas na Suíça.
A continuar assim, se em dez anos houver um historiador, ao se deparar com tais registros, há de entender que assim começou o fim do mundo.