Quatro medalhas de ouro, três de prata e três de bronze. Dez no total. O Brasil fechou, em Atenas, sua melhor campanha olímpica. Há quatro anos, em Sydney, conquistou 12 medalhas, mas não subiu uma vez sequer no mais alto degrau do pódio. Em Atlanta, nos Estados Unidos, foram 15 no total, três de ouro. A delegação de 2004 foi a maior da história: 247 atletas divididos entre 125 homens e 122 mulheres. Os números não escondem, porém, que não se constrói uma potência olímpica sem investimentos.
Os resultados na vela, com duas medalhas de ouro, revelam a excelência do trabalho de Robert Scheidt ou de Torben Grael e Marcelo Ferreira na Laser e na Star. Faz dessa categoria a que mais conquistou medalhas olímpicas. Excelente, mas pouco para um país com um litoral gigantesco e para um esporte que ainda é exclusivo da elite.
No vôlei, o título da equipe comandada por Bernardinho é reflexo de anos de investimento nesse esporte, na formação de gerações anteriores que abriram o caminho, fizeram história, atraíram patrocínio privado. O título olímpico, somado à conquista da Liga Mundial, demonstra que é na parceria público-privada, nos investimentos do Estado e de empresas, que se podem construir centros de excelência, de popularizar a modalidade e atrair legiões de jovens que se espelham no exemplo dos heróis das quadras e, também, das areias. As medalhas de ouro de Emanuel e Ricardo e a de prata de Adriana Behar e Shelda são reflexos de seqüências de competições internacionais, de parcerias eficazes e, claro, da garra individual.
No hipismo, outro esporte de elite, Rodrigo Pessoa conseguiu uma prata com Baloubet du Rouet, que se redimiu de madrugada de sofrimento, há quatro anos, quando o Brasil viu sua última chance de ouro ser desperdiçada quando o cavalo refugou diante de um obstáculo.
O judô, com os bronzes de Leandro Guilheiro e Flávio Canto, aproxima-se do atletismo. É a terceira categoria que mais deu medalhas ao Brasil. Modalidade que vive, ao longo dos anos, altos e baixos, tanto na qualidade dos atletas quanto nos investimentos públicos e privados.
O futebol feminino repetiu, em Atenas, o resultado do masculino em outros Jogos, trazendo a prata. Um esforço a ser reconhecido em um esporte que não chega a ser popular ou de elite, mas que começa a fazer escola no Brasil.
A ginástica, que levou a Atenas nomes como Daniele Hypólito e Daiane dos Santos, mostrou que há um desenvolvimento do país, mas que este ainda depende muito das atuações individuais - cada vez mais brilhantes - e ainda não tem a força de equipes com condições de fazer frente a outras nações com centros de treinamento montados e um número de praticantes muito superior aos nossos.
No atletismo, a grande decepção. Com 12 medalhas ao longo das participações brasileiras nos Jogos, desde 1920, desta vez chegamos a apenas um pódio, na maratona, com Vanderlei Lima, que seria ouro não fosse um bêbado que o agarrou sob o olhar complacente da segurança e organização do evento. Aí reside a grande diferença do Brasil para outros países que espalham pistas, centros de treinamento e professores nas escolas. E aí está o grande salto a ser dado no esporte brasileiro.
Somos uma nação campeã em assassinatos de jovens entre 18 e 25 anos. Somos palcos de metrópoles em que se aguçam as diferenças sociais e o tráfico de drogas atrai legiões de adolescentes que vivem em favelas e comunidades carentes - para quem passar dos 25 anos pode ser considerado um recorde.
Com o Rio de Janeiro já escolhido para sediar os Jogos Pan-Americanos de 2007, restam-nos três anos para fazer as honras da casa. Este é o tempo para plantar como política dos governos federal, estaduais e municipais e das maiores empresas instaladas no país o que será mais do que o desejo de fazer do Brasil uma potência olímpica.
É a hora de dar a dezenas de jovens motivação e condições para mudar o rumo da história. Da própria e de toda a nação. É hora de abandonar apenas o discurso e tornar cada escola, cada ginásio de uma cidade, pequena ou metrópole, em celeiro de uma geração saudável, competitiva (no melhor dos sentidos), que tenha garantia de saúde, educação e uma formação que finalmente possa nos transformar no país do presente e não mais do (eterno) futuro.
A Seleção Brasileira de vôlei, a melhor do mundo, é o exemplo a ser perseguido. Reflete a união em torno de um mesmo objetivo, a noção exata do que é um trabalho em equipe e uma liderança forte, que sabe dar coesão e competência a um grupo. Acima de partidos, religiões, cor, classe ou credo.