A primeira metade do
mandato de Lula, como
não se cansam de
informar os mandarins
do PT, foi consumida
no esforço para lidar com a “herança
maldita” legada pelo ex-presidente
Fernando Henrique Cardoso. A política
econômica pouco mudou, mas a
favorável conjunção dos astros, sublinhada
pela ausência de crises internacionais,
tem provocado efeitos positivos
na economia.
Tais efeitos, por enquanto, permanecem
confinados em números e estatísticas:
um passeio pelas ruas e pelos
campos do país exibe paisagens desoladoras,
fruto de problemas sociais
endêmicos. Mas Lula está feliz.
“Muitos tentaram atravessar o Canal
da Mancha, poucos conseguiram”,
declarou há dias. “Nós conseguimos.
Estamos pisando em terra firme”.
Nós e milhares de indivíduos que
cruzam todos os dias a ponte rodoferroviária
entre a Inglaterra e a França.
É possível que Lula desconheça a
existência da ponte. Ele ignora muitas
coisas. Parece ignorar, por exemplo,
que governar é escolher – escolher
com a rapidez possível e, de preferência,
corretamente. O presidente pensa
na reforma ministerial desde setembro.
Só agora conseguiu concluí-la.
As escolhas anunciadas não estimulam
a esperança de que, liberada
da “herança maldita”, a Era Lula enfim
tratará de cumprir as promessas
de campanha, e promover mudanças
capazes de desenhar o Brasil vislumbrado
na retórica eleitoral. As indicações
não levaram em conta critérios
vigentes em nações civilizadas, como
competência e conhecimento da área.
Prevaleceram os manuais da conveniência
política e da barganha fisiológica.
A reforma ministerial não foi
feita para melhorar o país, mas para
reeleger o presidente.
O senador Romero Jucá, figurão
do governo FH, bandeou-se do PSDB
para o PMDB e acabou premiado com
a Previdência Social. Tem contas a
ajustar com o Fisco, mas essas miudezas
não impedem ninguém de instalar-
se num gabinete desocupado pelo
senador Amir Lando.
Indicado pelo onipresente Severino
Cavalcanti, o deputado Ciro Nogueira,
do PP piauiense, pousou no
Ministério das Comunicações horas
depois de ter contado a jornalistas que
colava no tempo de estudante. E dirigia
sem carteira de habilitação.
E daí?, dirá Severino, protetor confesso
dos motoristas infratores e cachaceiros
brigões de João Alfredo,
terra natal do presidente da Câmara.
A folha corrida do escolhido também
registra a mania de nomear parentes.
E quem faz isso?, dirá o padrinho de
Ciro Nogueira.
Outra noviça no primeiro escalão,
Roseana Sarney deixará o PFL para
cuidar do Ministério das Cidades. É
filha do ex-presidente José Sarney.
Governou o Maranhão duas vezes.
Certamente conhece centenas de cidades.
É preciso mais?
“Eu sou o técnico do time”, vive
proclamando Lula. Quem formula táticas
é o Capitão José Dirceu. O chefe
da Casa Civil também participa do
Conselho dos Altíssimos Companheiros,
que auxilia o técnico a tomar
decisões complexas demais para um
Lula só. De questões econômicas se
encarregam o médico Antonio Palocci
e o presidente do Banco Central,
Henrique Meirelles. O resto do time
ajuda na marcação. De vez em quando,
até consegue fazer um gol.
A contemplação do retrato do novo
Ministério exibe um conjunto de
quinta categoria, incapaz de traçar os
caminhos que o Brasil deveria percorrer
em direção à modernidade. (Não
que as equipes de governos anteriores
tenham impressionado pela qualidade,
mas esta é de chorar). Ainda assim,
é muito provável que Lula consiga
reeleger-se, talvez com facilidade.
Descolado do velho PT, mantém bons
índices de popularidade. É simpático,
cativante, sedutor. Os ricos têm acumulado
lucros deslumbrantes no seu
governo, os pobres crêem na ocorrência
de mudanças. É difícil aceitar que
esse filho do Nordeste já não se lembre
do sofrimento de sua gente. Faltam
candidatos à oposição. Ou talvez
o destino apenas nos tenha condenado
não ser felizes tão cedo.
O duelo entre o Leão do Norte e o Leão do Fisco
Afagado por empresários, o deputado
Severino Cavalcanti, presidente da
Câmara, promete engavetar todos os
tributos malandramente introduzidos na
Medida Provisória 232. O governo acha
que o Leão do Fisco acabará amansando
o nosso Leão do Norte, já premiado com
a indicação de um ministro amigo.
Agora, o Planalto tem sugerido
mudanças que, se abrandam a tunga
armada pela Receita Federal contra
alguns setores da economia, passam ao
largo dos truques forjados para tomar
dinheiro de profissionais liberais.
Quase todas as vítimas são
brasileiros da classe média.
Forçados a transformar-se em
pessoas jurídicas, para continuar
prestando serviços a empresas
sangradas pela legislação trabalhista,
preparam uma campanha nacional caso
o Congresso aprove o aumento dos
tributos. Principal palavra de ordem: não
reeleja nenhum deputado.
Depois de vistoriar os
campos conflagrados, o
Cabôco Perguntadô está
em dúvida sobre as reais
motivações da devastação
ocorrida nos hospitais
federais do Rio. Teoricamente,
houve uma
guerra entre o Ministério
da Saúde e a prefeitura
carioca. Sempre desconfiado,
o Cabôco examina
outra hipótese: não teria
sido uma esperteza urdida
do sempre criativo Cesar
Maia, destinada a reduzir
pela eliminação física
a fila de pacientes
que não pára de crescer?
Suriname
leva taça
No meio de um inflamado
improviso, o prefeito
de Recife, João Paulo,
berrou uma frase da pesada
para deixar muito
claro que não está no cargo
a passeio.
“Não tenho medo e não
abro nem para o
Suriname!”
Como não há problemas
visíveis entre o país
vizinho e a capital de Pernambuco,
presume-se
que o bravo prefeito estava
querendo dizer “tsunami”
(aquilo que para
Lula é “vendaval”).
BNDES inclui
na folha craque
em carnaval
O presidente do BNDES
tem direito a 40 “assessores
diretos”. Ocupantes de cargos
de confiança, costumam
acompanhar na desventura o
chefe afastado. Foi assim com
o bando que cercava Carlos
Lessa, ex-comandante da sigla.
Mais afeiçoados ao salário
que ao chefe, 28 voltaram
logo a seus postos. E voltaram
em companhia de uma penca
de contratados, colhida nos
botes atulhados de náufragos
das eleições de outubro.
Entre eles figura um jornalista
que assessorava Marta
Suplicy até a derrota na batalha
da reeleição. O currículo
do companheiro foi resumido
no jornalzinho da entidade.
Item mais vistoso: brilhou na
organização do carnaval paulista.
O BNDES deve estar planejando
algo para o desfile na
Sapucaí. Mais explicações, só
com o Capitão Dirceu.
Só chega dinheiro à selva
se o trem apitar na tela
Enquanto prossegue a
montagem da política
nacional de transportes –
calma, gente boa: Lula
chegou lá faz
só dois anos –,
quem sonha
com a
recuperação
da malha
ferroviária
deveria pedir
ajuda a
ficcionistas da
TV Globo.
A passagem
por Rondônia
da equipe
escalada para as gravações
da minissérie Mad Maria,
que rememora a saga da
Madeira-Mamoré, provocou
efeitos surpreendentes. Para
que o trem da selva voltasse
apitar na tela, até dinheiro
apareceu. De diferentes
cofres.
O governo estadual
investiu R$ 500 mil (quantia
dobrada por contribuições de
empresários locais) no
esforço para a
ressurreição
da ferrovia. A
locomotiva do
título foi
restaurada,
tratou-se da
recuperação
de trilhos e
equipamentos,
abriu-se
espaço na
floresta.
Também
seduzido pelos encantos da
TV, o governo federal liberou
R$ 570 mil para a
reconstrução de dois trechos.
É pouco, mas pode ser um
caminho: que tal incluir
noveleiros nos grupos
interministeriais que zelam
pelos transportes do Brasil?
Política ambiental é isso
Guerreira solitária, a
arqueóloga Niède Guidon
tenta há décadas impedir a
destruição do Parque
Nacional da Serra da
Capivara, nos sertões do
Piauí. Para a Unesco, trata-se
desde 1991 de um Patrimônio
da Humanidade. Para a gente
do lugar, é só uma terra sem
dono, com animais a caçar e
grutas sob medida para
abrigar os sem-casa.
A foto acima é a perfeita
imagem do absurdo: numa
gruta enriquecida por
pinturas rupestres
milenares, todas à espera de
estudos, Niède topou com a
geladeira abandonada pela
família que desistiu de morar
ali. A qualquer momento, os
predadores poderão decretar
a remoção a bala da teimosa
arqueóloga. E então o
governo federal agirá.
Guerrear por
computadores
é muito fácil
A contagem foi cuidadosa.
O resultado é apavorante. Entre
1º de março e sexta-feira
passada, apenas 18 dias, a coluna
recebeu 617 mensagens
com o mesmo conteúdo, enviadas
por alunos de uma única
escola, aliados a amigos ou
parentes. “A Faculdade Nacional
de Direito pede socorro”,
eis o título do texto, que
denuncia medidas insensatas
tomadas pelas autoridades,
além de agressões ao bom funcionamento
do curso.
Declaro-me solidário com
os alunos da faculdade onde
estudei, endosso a luta do bravo
centro acadêmico. Mas
também peço socorro: parem
com as mensagens, certamente
distribuídas entre dezenas
de jornalistas. Esse combate
virtual só derruba a paciência
dos destinatários. Saiam todos
da frente do computador
e encarem o inimigo real.