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O Brasil anda ficando muito jeca


Diplomatas são adestrados para tratar com zelo e rigor a memória do Itamaraty. Permanecem lacrados pelo sigilo, por exemplo, documentos sobre episódios da Guerra do Paraguai, ou negociações envolvendo a fixação de fronteiras. Mas altos funcionários do Ministério das Relações Exteriores parecem acometidos de amnésia seletiva, cujo sintoma mais evidente está na esperta manipulação de datas. Sofre desse mal, no momento, o embaixador Fernando Reis, diretor do Instituto Rio Branco, incumbido do recrutamento de diplomatas.

''O inglês só começou a ter caráter eliminatório a partir de 1996'', afirmou Reis há dias. Disposto a juntar-se ao esforço de desmontagem de um dos poucos centros de excelência do país, o declarante mentiu. O que houve em 1996 foi a exclusão do francês da fase eliminatória. A prova de inglês, eliminatória desde a criação do Instituto, assim continuou até dezembro passado.

Reis sabe disso: ele teve de superar a prova oral e a escrita para ingressar nos quadros do Itamaraty. Agora proclama que é preciso tornar ''menos elitista'' a chegada à carreira diplomática. Assim, por que conferir tanto valor a outros idiomas? Uma nação democratiza o acesso a qualquer profissão quando aprimora o sistema de educação, sobretudo o ensino básico.

O Brasil prefere fazer tudo pelo avesso, subverter a lógica, escancarar as portas a despreparados. No caso do Itamaraty, para que conferir tamanha relevância a estrangeirices que só se prestam a demonstrações de erudição perfeitamente dispensáveis? Coisa de elite. Como logo vai virar coisa de elite essa mania de falar português com todos os esses e erres. O companheiro Lula chegou lá falando um português que, nas escolas primárias de antigamente, decerto induziria uma professora caridosa a reservar horas extras para melhorar a cabeça daquele pernambuquinho esperto. Diploma é só mais um papel.

O amesquinhamento do Instituto Rio Branco é só a ponta do rabo da serpente. ''O que se vê é um assombroso ralo de esvaziamento de valores'', escreveu Mauro Chaves no jornal O Estado de S. Paulo. ''Há uma verdadeira conspiração em curso contra o mérito e o esforço do aprendizado. É o conceito de merecimento que se vai esboroando. É o empenho individual na aquisição de conhecimentos que se vai desmoralizando. Parece que se está tentando implantar no País uma espécie de Revolução Incultural (talvez embasada numa Doutrina da Neo-Ignorância), que relega ao desprezível 'elitismo' todo o esforço pessoal do aprendizado, toda a busca de conhecimento, para aperfeiçoamento''. Perfeito.

O Dicionário Houaiss oferece dois significados para o substantivo ''elite''. Primeiro: ''minoria que domina um grupo''. Segundo: ''o que é considerado o melhor''. Nações civilizadas estigmatizam com adjetivos a primeira acepção, e combatem a hegemonia da ''elite exploradora'', ''da elite corrupta'' e assim por diante. Vigora essencialmente o segundo significado. Elites são encaradas com naturalidade e assumem sem ruídos a liderança nos campos de atuação. Assim, há a elite esportiva, a política, a jornalística ou a sindical, linhagem de que já fez parte o atual presidente da República. Neste país da Era Lula, pertencer à elite cultural vai dar cadeia.

''O Brasil é muito jeca'', repetia Paulo Francis. Era jeca nos tempos em que incensava num sambinhas a fantasia segundo a qual Ruy Barbosa foi à Inglaterra para ensinar inglês. Continua jeca ao decidir que falar tal idioma é bobagem, coisa de elite, mesmo para diplomatas destinados a usar, queiram ou não, uma língua que se tornou universal. ''Todos aprenderão inglês durante as aulas no Instituto Rio Branco'', diz agora o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. Está mentindo. Se isso é possível, alguém deveria ensinar português ao presidente até o final do segundo mandato que já procura garantir.


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[03/FEV/2005]


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