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É o momento de mostrar quem manda


Foto ABr O vice-presidente Alencar assume com entusiasmo o Ministério da Defesa

O político argentino Arturo Illia (1900-1983) resumiu a lição numa frase: “A los militares o se los manda o se los obedece”. A saga de Illia ilustra à perfeição essa verdade tropical. Democraticamente eleito nas urnas, o candidato do Partido Radical assumiu a presidência da Argentina em 1963. Três anos depois, ao aproximar-se dos peronistas para garantir amparo no Congresso, foi derrubado por um golpe militar comandado pelo general Juan Carlos Onganía. Faltara ao presidente civil poder suficiente para impor-se como chefe constitucional das Forças Armadas. Não conseguiu mandar. Restou-lhe obedecer quando os militares decidiram podar-lhe o mandato. Sim, eram outros os tempos.

Os quartéis pareciam muito acanhados para guardiães da pátria, democracias sul-americanas sofriam de anemia crônica. Mas a lição de Illia não está grisalha. Evocá-la é recomendável sobretudo numa semana marcada pela troca de inquilinos no Ministério da Defesa. José Viegas sai por não saber mandar. Entra o vice-presidente José Alencar. Que saiba neutralizar manobras militares forjadas para induzi-lo a obedecer.

“Colosso, Lula, colosso!”, exclamou o escolhido quando formalmente convidado pelo presidente para assumir o Ministério da Defesa. “Nós, jovens, estamos sempre animados”, pilheriou mais tarde esse mineiro setentão. Boa frase. Sem qualquer serventia.

Conciliador convencional, de temperamento bonachão às vezes camuflado por críticas à equipe econômica, acredita que, com paciência e conversa, tudo se resolve. Não é bem assim no universo onde acaba de pousar. A fisionomia das Forças Armadas em nada lembra a carranca dos quartéis que apascentaram a ditadura. Mas sobrevivem bolsões extremistas, enfim denunciados na carta de demissão de Viegas, que o novo ministro terá de erradicar, com o apoio de Lula. “Já é hora de que os representantes desse pensamento ultrapassado saiam de cena”, avisou Viegas. Ele se refere aos responsáveis pela nota do Exército divulgada em seguida à publicação de supostas imagens do jornalista Wladimir Herzog no dia da morte. Não é Herzog quem aparece nas fotos. Mas a iracunda reação de integrantes da cúpula do Exército tornou irrelevante a real identidade daquele homem nu. Cumpre a José Alencar puni-los exemplarmente.

Com a honestidade sempre sublinhada por seus amigos, Viegas responsabilizou-se por uma nota sobre a qual nem foi consultado. Tíbio irrecuperável, não detalhou o episódio, não esclareceu a trama, não identificou o elenco nem explicitou o papel de cada ator. Admita-se que também o comandante do Exército, general Francisco Albuquerque, tenha sido atropelado por subordinados. Nessa hipótese, fica claro que não sabe mandar. Deve ceder o cargo a alguém que saiba obedecer, e mantenha incólume a cadeia de comando.

No Brasil de 2004, tentativas de golpes semelhantes às do século passado esbarrariam na gargalhada nacional. Mas muitos quepes (e também pijamas que se acham fardas) rejeitam essa evidência. Tampouco se pode ignorar o descontentamento da tropa com soldos baixos e equipamentos obsoletos. Alencar terá de resolver tais problemas, deixando sempre claro quem manda e quem obedece.

Dor em dose dupla

A desolação do primeiro-marido Luiz Favre, traduzida no semblante e na camisa amarfanhada, não reflete só a decepção pela derrota de Marta Suplicy na tentativa de renovar a permanência na Prefeitura de São Paulo. Confortado pelo vereador eleito José Américo, o argentino redesenhado na França tenta recuperar-se de outra constatação dolorosa: terminada a campanha, deixará de receber a mesada de R$ 20 mil que Duda Mendonça lhe pagava para ajudar na busca do caminho da vitória. Favre talvez deva inscrever-se entre os interessados no Programa Primeiro Emprego. Lula é seu amigo, além de padrinho de casamento. Alguma vaga não demoraria a aparecer.



Enigma a decifrar

Essas contrações faciais de José Genoino foram registradas quando recebia informações sobre os resultados do segundo turno. Qual das duas notícias acabou de chegar ao presidente do PT?:

1. A derrota de Raul Pont em Porto Alegre.

2. A vitória de Luizianne Lins em Fortaleza.



Ministro por perto atrapalha

Os ministros gaúchos Olívio Dutra, Tarso Genro, Miguel Rossetto e Dilma Rousseff, eleitores em Porto Alegre, engajaram-se na campanha de Raul Pont. Naufragaram todos. Em Ribeirão Preto, cuja prefeitura trocou pelo ministério, Antônio Palocci tentou inutilmente reeleger o vice promovido a titular. Em Fortaleza, Luizianne Lins atropelou os ministros Ciro Gomes e José (“Sou PT, voto Inácio”) Dirceu. Em São Paulo, afundaram com os ministros Ricardo Berzoini, Luiz Gushiken e, claro, Dirceu. Ajudariam mais se tivessem ficado em Brasília.

Ministro ao longe só ajuda

Reeleitos já no primeiro turno, todos com notável vantagem sobre os concorrentes, três prefeitos do PT dispensaram ajuda federal para reafirmar a força nas urnas. No Recife, João Paulo manteve a distância o ministro da Saúde, Humberto Costa, pernambucano ruim de voto. Em Aracaju, Marcelo Déda foi beneficiário da pouca importância atribuída no Planalto a Sergipe: o Ministério não inclui ninguém de lá. Em Belo Horizonte, a campanha de Fernando Pimentel passou ao largo do ministro Walfrido dos Mares Guia, do PTB mineiro. Parabéns, prefeitos. Sejam gratos aos ausentes.

Cabôco Perguntadô

Tolerante desde criancinha, o Cabôco Perguntadô sempre foi contrário ao bloqueio econômico imposto a Cuba pelos EUA. Hoje autonomeado líder da ala dos democratas ultra-radicais, acompanha atentamente as sucessivas demonstrações de apreço a Fidel Castro emitidas pelo governo brasileiro. No momento, cobra de Lula respostas claras a três perguntas. O presidente considera democrático o regime cubano? Lula concorda com a aplicação da pena de morte a inimigos políticos? Acha que existe liberdade de imprensa na ilha? O Cabôco Perguntadô quer opinar com segurança sobre a obscura mancebia.

Contra-ofensiva

Foto Abr Há meses, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, decidiu que a prova de Francês deixaria de ser eliminatória nos exames para ingresso no Instituto Rio Branco. Ali são formados os futuros diplomatas brasileiros. Agora, o rebaixamento se estendeu à prova de Inglês.

Perplexos com a mudança, embaixadores de boa linhagem vão arquitetando a contra-ofensiva. Pretendem sugerir ao presidente a inclusão do exame de sanidade mental nos critérios que orientam a escolha do chanceler. Acham que isso livraria o Itamaraty (e o Brasil) de outro Amorim.

O penoso exemplo de Zica

Mineiro de Biquinhas, já no terceiro mandato como deputado federal pelo PT paulista, Luciano Zica vai lembrar-se de 2004 como um ano de perdas políticas (poucas) e ganhos financeiros (enormes). Aos 53 anos, tropeçou no primeiro turno como candidato a prefeito de Campinas. Mas o sindicalista demitido da Petrobras em 1983 foi indenizado pela Comissão de Anistia com R$ 1,3 milhão e brindado com a pensão mensal de R$ 9.200. No Congresso o espera o salário reajustado: quase R$ 100 mil. Zica não será prefeito. Só milionário.

O grande exemplo de Anita

Filha de Luiz Carlos Prestes e Olga Benário, que definhava numa prisão da Alemanha nazista quando Anita Leocádia nasceu em 1936, essa mulher que hoje leciona História do Brasil na UFRJ protagonizou um episódio que deveria ser incluído nos livros recomendados aos alunos. Militante comunista, pediu à Comissão de Anistia a inclusão, na contagem do período para a aposentadoria, dos anos em que foi impedida de trabalhar por motivos políticos. Ganhou a causa e uma indenização de R$ 100 mil. Doou-os ao Instituto do Câncer. “Não pedi dinheiro”, diz. “Só o tempo que me tomaram”.

Taça com tarja preta

O episódio da morte do zagueiro Serginho, do São Caetano, vítima de enfarte no jogo contra o São Paulo, não melhorou o currículo do doutor Paulo Forte, mas acaba de enriquecer sua sala de troféus. Além de ter liberado para jogar um atleta que sabia ameaçado por problemas cardíacos, o médico do São Caetano nada viu de errado no socorro a Serginho. E declamou, em entrevista à CNN, a frase que lhe deu um Yolhesman com tarja preta:

“Tomamos todas as medidas médicas para reverter o óbito.”

Se tal fenômeno fosse consumado, o facultativo teria produzido o primeiro caso de ressurreição desde Lázaro.


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[07/NOV/2004]


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