No filme
A noite dos desesperados, inspirado no pesadelo imposto a milhões de norte-americanos pela depressão econômica dos anos 30, uma das melhores cenas inclui a frase que resume a derrota irrecusável. ''Eles matam cavalos, não matam?'', murmura um dos personagens.
Em inglês, a frase é o título original do filme: They shoot horses, don't they? Mandam usos e costumes universalmente aceitos que animais afetados por lesões ou doenças sem cura sejam sacrificados com um tiro de misericórdia. No filme, a figura desprovida de horizontes pede que lhe concedam essa graça duvidosa, paradoxal. Implora por uma bala na cabeça.
Pode parecer a alguém um gesto misericordioso, será sempre um momento de horror. Que dizer do assassinato em série de mendigos em São Paulo?
Não foram ainda identificados autores, motivação, objetivos, nada. Muitos policiais são caçadores de primeira. Poucos sabem investigar sem bater.
Políticos tateiam pretextos para transferir responsabilidades: a culpa tem de ser do adversário, de qualquer partido. E o resto do Brasil contempla.
Nesse quadro brutal, nada é tão perturbador quanto a indiferença de quase toda a população. No país cruel com suas crianças, impiedoso com os velhos, como esperar que moradores de rua recebam ao menos o olhar solidário? Mendigos espalhados por praças ou estendidos sob viadutos não são gente como a gente. Lembram alguma coisa subumana, estranha, intrigante, amedrontadora.
Não merecem, para os carrascos soltos na noite, sequer o tiro de misericórdia. São executados a pauladas, recomendáveis para esmagar sem muito ruído cabeças já carentes de parafusos. A tese da banalidade do mal vem sido reafirmada quase todos os dias na maior cidade do Brasil. Os omissos conseguem dormir. Não serão absolvidos.
Cabôco Perguntadô
Ao formalizar o apoio a Nilo Batista, candidato do PDT a prefeito do Rio, o sempre imaginoso João Pedro Stédile convocou uma manifestação de protesto contra a licitação de áreas para exploração de petróleo. O Cabôco Perguntadô quer saber: o que anda planejando o Guia Genial do MST para as províncias petrolíferas consideradas improdutivas? O Cabôco acha que Stédile vai confiscar barcos ou iates que ficam à toa na Baía de Guanabara, montar tripulações com companheiros e mobilizar a frota. Depois da invasão, Lula será presenteado com outro bonezinho.
Prêmio para
o ordenança
Sargentão da tropa de choque de Fernando Collor, hoje ordenança de Lula da Silva, o deputado fluminense Roberto Jefferson, presidente nacional do PTB, explicou por que é preciso esquecer de vez a CPI do Banestado:
ESSA CPI PRECISA SER ENTERRADA PORQUE ACABOU VIRANDO UMA DELEGACIA, QUE É O ESGOTO DA SOCIEDADE.
Por complicar a coisa ainda mais, leva a taça da semana.
Outra lição da menina voadora
Grande Daiane dos Santos, constatou o jornalista Clóvis Rossi em notável artigo na Folha de S.Paulo. Grande pelo quinto lugar obtido nos Jogos Olímpicos, proeza admirável especialmente quando alcançada por uma gauchinha negra e pobre que, poucos anos atrás, fazia piruetas em praças de Porto Alegre. Grande por ter decolado num ginásio na Grécia com o país inteiro pendurado sobre os ombros, e sempre assediada por entrevistadores idiotizados. Mas grande sobretudo pela reação ao desfecho da luta na Olimpíada de Atenas.
Daiane poderia ter-se queixado das múltiplas e intensas pressões, suficientes para abalar o equilíbrio nervoso de antigos estadistas espartanos. Poderia ter invocado os meses de sofrimento imposto por lesões no joelho, submetido a cirurgias. Poderia ter lembrado que nenhuma ginasta brasileira fora tão longe. Preferiu o caminho da coragem, e a resposta veio sublinhada pela naturalidade magnífica com que costuma voar.
''Eu errei'', resumiu a menina. ''É uma coisa que acontece''. Pode acontecer com qualquer um. Com esportistas, com craques em qualquer setor, com governantes, até com presidentes. Mas raríssimos reconhecem ter errado.
Na semana passada, de passagem pelo Equador, o presidente Lula da Silva estava dizendo a alguém que errara ao interferir em nomeações para cargos federais. Então notou o perigo: havia por perto microfones e câmeras.
A essência da conversa fora gravada, mas Lula prontamente desmentiu o que dissera. Lula nunca erra. Deve continuar achando que acertou ao recompensar com o cargo de superintendente da Polícia Federal em São Paulo o amigo que cuidara do esquema de segurança do candidato. Afastado em meio a suspeitas de grossas falcatruas, terá sempre a mão estendida de Lula. Amigo não abandona amigos.
Lula nega ter errado ao renovar o mandato do ministro José Dirceu como ''capitão'' do time do Planalto. Dirceu nega ter errado ao transformar em braço direito o amigo Waldomiro Diniz, que estaria imobilizado por algemas em qualquer país minimamente sério. O ministro deve achar que acertou ao prometer os pingos nos is que nunca vieram. Ninguém pode reconhecer erros no governo de um país onde admitir ter errado é que virou erro.
Daiane, também por isso, merece o tratamento de heroína. Um país precisa de heróis, sim. Não precisa é de gente que nega ter errado só para bancar o herói.
A decisão é dos leitores
Um leitor selecionou títulos publicados nos últimos meses por jornais do Rio que, a seu juízo (e por falta de), considera merecedores do Yolhesman Crisbelles. A coluna, democraticamente, pinçou de todas as publicações alguns atentados à sensatez e decidiu entregar aos leitores a escolha do campeão da semana. Seguem-se os candidatos à taça:
JORNAL DO BRASIL
- Depois de algum tempo, a água corrente foi instalada no cemitério, para a satisfação dos habitantes”
Ela contraiu a doença na época que ainda estava viva”
O GLOBO
- Apesar da meteorologia estar em greve, o tempo esfriou intensamente”
- Os nossos leitores nos desculparão por esse erro indesculpável”
EXTRA
- Os sete artistas compõem um trio de talento”
- Parece que ela foi morta pelo seu assassino”
- O acidente foi no triste e célebre Retângulo das Bermudas”
O DIA
- A vítima foi estrangulada a golpes de facão”
- O tribunal, após breve deliberação, foi condenado a um mês de prisão”
- O velho reformado, antes de apertar o pescoço da mulher até a morte, se suicidou”
Para qual desses veículos você daria medalha de ouro pelas manchetes?