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Um desperdício ultrajante


Já na terceira legislatura, incorporado à bancada do PMDB, Osvaldo Biolchi sofre desde 1995 o semi-anonimato imposto aos integrantes do chamado ''baixo clero'' da Câmara dos Deputados. Gaúcho de Carazinho, 69 anos, ele parecia condenado a definhar nesse populoso limbo do Poder Legislativo. Ali se acotovelam recém-chegados, gente que ainda faz estágio nos cursos reservados a futuros caciques, figuras circunscritas a capitanias regionais e, sobretudo, dúzias de mediocridades federais. A essa categoria pertence Osvaldo Biolchi.

Na semana passada, ele emergiu para a notoriedade graças aos repórteres Hugo Marques e Rafael Sento Sé, do JB. Onde parecia haver um setentão em fim de carreira, os jornalistas descobriram um campeão. Os repórteres foram conferir de que modo os pais da pátria haviam usado em janeiro a ''verba indenizatória'' de R$ 12 mil paga pela Mesa da Câmara (que se soma aos salários regulares e aos adicionais resultantes da convocação extraordinária). Encontraram em Biolchi um recordista na modalidade ''gastança do dinheiro público''.

A ''verba indenizatória'', de acordo com o palavrório legislativo, se destina a bancar despesas com ''consultoria, divulgação, material, escritório de apoio à atividade parlamentar e locomoção''.

Estes dois últimos itens, desdobrados em gastos com gasolina e lubrificantes, permitiram a Biolchi estabelecer em janeiro números impressionantes. Ele conseguiu gastar nos postos de gasolina do Rio Grande exatos R$ 16.973,85.

São números oficiais, confirmados por notas fiscais apresentadas por Biolchi à Mesa da Câmara. Por ter superado o limite dos R$ 12.000, ele terá de conter-se nos próximos meses para reequilibrar as contas. Mas não viverá sobressaltos financeiros: a Câmara já deve ter-lhe devolvido integralmente o dinheiro que permitiu ao deputado comprar 8.486 litros de gasolina. É combustível suficiente para percorrer-se de carro 85.000 quilômetros. Isso equivale a 45 dias inteiros de viagem. Se os veículos que utiliza pudessem circular na estratosfera, Biolchi teria completado dois giros em torno do planeta. São proezas de craque no ramo.

Quase setentão, o conterrâneo de Leonel Brizola mostrou que continua bom de briga. A perplexidade dos jornalistas provocou-lhe um surto de ira: ''Não vou ao Rio Grande para coçar minha barriga, para não dizer outra coisa'', informou. (Não é um linguajar edificante, sobretudo na boca de um bacharel e professor universitário. Mas ele defendia, ressalve-se, a honra ameaçada pelo fio da suspeita.) ''O ano inteiro tenho contato com as bases.''

Onde ficam tais bases, isso Biolchi não revela. Ele tem votos na região de Carazinho e punhados de eleitores em outras regiões, mas a quilometragem atinge dimensões inexplicáveis. Em janeiro, o deputado teve de trabalhar pelo menos seis dias (os outros quatro previstos para as sessões extraordinárias foram tragados pela falta de quórum). Admita-se que o recordista gaúcho tenha aproveitado todas as folgas espertas e todos os fins de semana, além da primeira quinzena sem sessões no Congresso, para cruzar estradas. Admita-se que Biolchi seja tão desprendido que tenha renunciado ao convívio com a família. Ainda assim é demais.

O campeão de Carazinho não é o único destaque nessa farra da gasolina, mas se transformou num caso exemplar. ''Há limite para tudo'', lembrou recentemente Fernando Gabeira. Também há limite para o cinismo, ultrapassado sem rubores por Biolchi e seus parceiros de desperdício. O Poder Legislativo anda cometendo exageros perigosos. Começam a confundir-se com ultrajes e provocações. O Brasil democrático adverte: é hora de tomar juízo.

O ministro responde

O ministro do Turismo, Valfrido dos Mares Guia, escreveu a carta reproduzida abaixo, para reafirmar que é muito boa a idéia de convidar cineastas indianos a usar o Brasil como cenário de seus filmes:

O debate sobre a relação entre cinema e turismo é recente no Brasil. Mas há cerca de uma década um conjunto representativo de países vem oferecendo seu território para locações de filmes internacionais. A partir dessa experiência e de pesquisas posteriores, verificou-se que existe uma forte correlação entre o audiovisual e a percepção do destino turístico.

A Suíça foi um dos primeiros países a oferecer seu território como espaço de locação para filmes indianos. Isso resultou, nos anos seguintes às exibições dessas obras, num incremento de quase 30% no fluxo de turistas indianos para aquele país. Outro caso exemplar está nos resultados da trilogia O senhor dos anéis, filmada na Nova Zelândia. Já foi lançado o Guia de Locações da trilogia, para que turistas e fãs de Tolkien visitem os sítios das filmagens.

Constata-se, então, que o cinema pode apresentar dois impactos diretos no turismo de um país. O primeiro diz respeito ao desenvolvimento local, pois o número de pessoas envolvidas (figurantes, artistas e técnicos) necessariamente movimentará serviços de transporte aéreo ou terrestre, hotéis, bares e restaurantes. Essas são as conseqüências diretas, imediatas. O segundo aspecto diz respeito ao impacto dos filmes na percepção de destinos turísticos.

Estudos realizados nos Estados Unidos comprovam que filmes não-documentários influenciam a decisão de viagem de seus espectadores. Com base no acima exposto, o Ministério do Turismo vem trabalhando em conjunto com o Ministério da Cultura no sentido de desenvolver projetos específicos para a área. Tais projetos devem viabilizar produções cinematográficas conjuntas entre produtores brasileiros e estrangeiros. Além disso, e simultaneamente, devem contribuir para a disseminação da imagem do nosso país em mercados de interesse para a promoção dos destinos turísticos brasileiros.

A indústria de cinema da Índia, financeiramente auto-suficiente, tem sido considerada uma das maiores do mundo, alcançando a média de 450 a 500 produções anuais. Além disso, a exportação de produções indianas vem aumentando e o interesse dos produtores por novas locações é crescente. A Embaixada do Brasil em Nova Déli foi procurada por representantes da indústria de cinema em busca de informações sobre o Brasil. Por todos esses motivos, agiu corretamente o ministro do Turismo ao reunir-se com produtores em Mumbai, acompanhado do chefe de Gabinete do ministro da Cultura e do superintendente de Assuntos Estratégicos da Ancine.

Não faziam nenhuma ''maluquice'' (termo utilizado pelo colunista). Em vez disso, davam início, com o encontro, a uma política inovadora e arrojada de disseminação da imagem do Brasil na Ásia, cujos resultados serão consistentes e objetivos para o incremento dos fluxos turísticos para o país.

Enchentes para todos

O olhar desolado do arquiteto Fernando Zanforlin, entregue à contemplação dos estragos feitos por uma enchente em sua casa no refinado bairro do Morumbi, mostra que a prefeita Marta Suplicy vem cumprindo uma das principais promessas da campanha eleitoral: reduzir as diferenças entre ricos e pobres de São Paulo. Antes, só moradores de casebres e favelas sofriam com os temporais. Marta acaba de criar a figura do flagelado de mansão.

A taça faz escala em Piracicaba

O deputado federal João Hermann Neto, do PPS de São Paulo, atropelou em janeiro o limite da ''verba indenizatória'' concedida pela Câmara. Em vez de R$ 12.000, gastou cerca de R$ 14.300, consumidos sobretudo em gasolina. Não há explicações aceitáveis para tamanho absurdo, mas o risonho e corpulento ex-prefeito de Piracicaba resolveu ir à luta. Informou que circula por muitos lugares (mais precisamente por todas as regiões do Estado), costuma apertar regularmente as mãos de milhares de eleitores, essas coisas de sempre. E produziu a frase que lhe valeu o troféu Yolhesman Crisbelles da semana:

Esse proselitismo são os tentáculos do exercício da atividade parlamentar. É preciso colar as ventosas na terra do povo.

Bonito, isso.

Essa dupla é um caso de polícia

Nos primeiros minutos de 1999, meses depois do desabamento do Palace 2 - um prédio literalmente feito de areia - , o empreiteiro Sérgio Naya mostrou em Miami que perdera o mandato de deputado, mas não o gosto pela vida: num de seus hotéis, saudou com garrafas de champanha a chegada do Ano Novo. Agora se sabe que não celebrava o fim de um mau período. Brindava ao futuro, confiante na prevalência da impunidade. Cometera um crime que deixou sem morada e sem memórias dezenas de famílias. Mas não mostrava medo.

Na semana passada, o Brasil foi atraiçoado pela notícia de que Naya vencera. Com a autorização de um juiz do Rio, o articulador de implosões pudera vender parte dos bens bloqueados para o pagamento das vítimas. O juiz e o réu mereciam ficar juntos na cadeia.


O empréstimo garantido pelos canais do Refis à empresa paulista Fama Ferragens, a ser quitado em 890.000 anos (isso mesmo: 890.000), mostra que tudo tem seu lado positivo. Pelo menos os governos crêem que o Brasil sobreviverá a todos os governos.


[08/FEV/2004]


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