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O transgênico que o PT inventou


A ministra Benedita da Silva é o exemplar mais vistoso de um admirável transgênico produzido nos laboratórios do PT. A espécie surge do choque, inevitável com a chegada ao poder de políticos de origem pobre, das carências do passado com os requintes do presente. O que essa coisa dará, é cedo para saber. Por enquanto, tem dado muita confusão.

Para que a mudança genética ocorra, é preciso que ao objeto da experiência sobre entusiasmo e falte sabença. É o caso de Benedita. Suficientemente sensível para comover-se com as injustiças sociais à sua volta, foi à luta. Mas não teve tempo para entender exatamente o mundo que busca.

''Mulher, negra e favelada'', martelavam as primeiras campanhas. A pele continua escura e ela não mudou de sexo. Mas acabou virando, por etapas, uma Benedita transgênica. Primeiro, descobriu no Senado que o Morro Chapéu Mangueira pode ter lá seu charme, mas não é endereço para uma Mãe da Pátria. Governadora, constatou no inquilinato em palácios como a vida pode ser tão mais agradável.

Hoje ministra da Assistência Social, esse fenômeno genético tem oferecido indicações valiosas para os interessados no estudo das características da espécie. Se pobre gosta mesmo de luxo, como ensinou Joãosinho Trinta, quem deixou de sê-lo quer saber é do bom e do melhor.

Como o Hotel Alvear, onde se hospedou na viagem recente a Buenos Aires. A agenda argentina de Benedita, tão relevante quanto uma reunião de pinguins para debater o futuro da Patagônia, foi bancada por quem paga impostos. O passeio continuaria intolerável, mas poderia ter ficado mais barato se não se tivesse consumado a mutação.

Ela agora só voa na classe executiva (poltrona na econômica é para a assessora de imprensa). Aloja-se em hotéis cuja diária menos cara (cerca de US$ 440) supera amplamente as conferidas a ministros em viagem (US$ 300). E só vai devolver o dinheiro que gastou se a Justiça assim determinar. Espontaneamente, não.

A espécie esbanja resistência sobretudo quando instada a devolver qualquer coisa. Benedita já avisou que também não devolverá um só milímetro da casa no Morro do Chapéu Mangueira, às voltas com contestações judiciais. Devolver o ministério com que Lula a presenteou? Nem pensar. E removê-la será complicado: esse transgênico finca raízes poderosas.

Se transformasse em mensalidades do Fome Zero só o que desperdiçou com passagens e hotel em Buenos Aires, 140 famílias escapariam temporariamente do flagelo que a ministra conheceu quando negra, pobre e favelada. Quando ainda não se tornara a matriz de uma espécie que poderia ser batizada de ''beneluxo''.

JOÃO FERRADOR QUER SABER JOÃO FERRADOR QUER SABER

O primeiro símbolo do PT acompanhava inquieto as cenas mostrando o gabinete do ministro Guido Mantega ocupado por funcionários públicos em campanha salarial. Mas o sempre zangado João quase sorriu quando a companheira Cleuza Nascimento avisou que aquilo não era ocupação, muito menos invasão. Era só ''uma visita demorada''. (Durou a tarde inteira.) Se a idéia pegar, gostaria de levar o neto a uma dessas visitas. Nem precisa ser tão demorada. Ele quer ver o menino brincando de ministro uns dez minutos.

A Lira do Poder

Em 1938, o jovem Auro Soares de Moura Andrade partilhava com Jânio da Silva Quadros tanto os bancos da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo, quanto o hábito de produzir versos de gosto duvidoso. Diferentemente do arrebatado colega mato-grossense, o introspectivo paulista Auro parecia prenhe de inquietações existenciais, como se percebe no poema abaixo:

Vida

Vou passando por tudo!

Tudo passa por mim!

Sigo indiferentemente:

para onde, não sei!

– para além... para o fim...

A vida caminha:

vou indo... vou indo...

Para onde, não sei!

– para além... para o fim...

(...)

Não sei a que vou;

Não sei por que vim...

Terminado o curso, terminaram dúvidas do gênero. Auro decidiu virar político, tornou-se morubixaba do PSD velho de guerra e presidiu o Senado na turbulenta metade dos anos 60. No posto, especializou-se em colocar pedras no caminho dos outros. Em agosto de 1961, ao decidir que o ato de renúncia era decisão unilateral (e portanto não cabia ao Legislativo discuti-la), abortou eventuais reações favoráveis à permanência do presidente Jânio Quadros. Em 1964, João Goulart ainda estava no Rio Grande do Sul quando Auro decretou a vacância da Presidência. Assim se consumou a queda de Jango e o golpe militar.

A prevalência do cinismo

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso costuma afirmar que o Brasil, mais que pobre, é injusto. Pelo visto, está também ficando cada vez mais cínico. Basta ver como trata os nossos velhos.

Enquanto o Estatuto do Idoso vai arrolando leis que jamais serão cumpridas, os sobreviventes do país continuam a sofrer humilhações nas ruas, nos guichês do governo, no metrô, nos ônibus.

A leitora Myriam Giambiagi conta a última perversidade: os motoristas agora proíbem a entrada de idosos quando a parte dianteira está lotada. Dizem que há risco de acidentes nos currais. É pura cafajestagem.

Um jovem gaúcho é o nome da vez

A taça vai nesta semana para o deputado gaúcho Beto Albuquerque, líder da bancada do PSB na Câmara Federal e governista muito disciplinado. Venceu com uma declaração pinçada nos baús da retórica republicana.

''Não deixem a crise governar o Brasil!''

A frase começa por não ter rumo: a quem o deputado se está dirigindo com esse ''não deixem''? Tampouco faz sentido. Nenhuma crise jamais governou país nenhum. Países são governados por governos, forçados a lidar, de vez em quando, também com crises. Bem ou mal. Lidam melhor quando seus líderes no Legislativo falam português claro e evitam declamar tolices tão indecifráveis quanto o velho dístico da Banda de Ipanema: Yolhesman Crisbelles.

Vida Vou passando por tudo! Tudo passa por mim! Sigo indiferentemente: para onde, não sei! - para além... para o fim... A vida caminha: vou indo... vou indo... Para onde, não sei! - para além... para o fim... (...) Não sei a que vou; Não sei por que vim...


[19/OUT/2003]


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