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Nas rotas medonhas dos pântanos


Um dos tripulantes dessa nau dos insensatos que flutua repleta de representantes dos três Poderes, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Maurício Corrêa, resumiu com sabedoria o comportamento de Asma Jahangir, funcionária da ONU especializada na questão dos grupos de extermínio. “Essa mulher não conhece o Brasil”, afirmou um indignado Maurício Corrêa.

Ele se mostrava irritado, como muito aborrecida estava a categoria inteira dos togados, com a sugestão formulada por Asma: incumbir um grupo de emissários da ONU de inspecionar efetivamente o desempenho dos tribunais do país, fechando lentes sobre episódios envolvendo execuções sumárias.

Quem diz isso não conhece o Brasil, decidiu Corrêa. Acertou. Se conhecesse menos superficialmente estes trêfegos trópicos, a emotiva Asma decerto teria evitado ouvir os depoimentos de cidadãos dispostos a apontar os nomes de matadores notórios, mas impunes. Dois acusadores falaram sem medo. Ambos já foram assassinados.

Em 27 de setembro, consumou-se a execução de Flávio Manoel da Silva. Dias antes, em depoimento à representante da ONU, ele relatara com detalhes apavorantes muitos crimes cometidos por um bando baseado na Paraíba (e previsivelmente integrado por policiais). Na quinta-feira passada, 9 de outubro, chegou a vez de Gerson Jesus Bispo. Em 20 de setembro, ele conversara com Asma sobre uma quadrilha que mata na Bahia.

Ao corporativismo do Judiciário logo se juntaram manifestações oportunistas de autoridades prontas para descarregar a culpa nos tribunais do país. O chefe da Casa Civil, ministro José Dirceu, apoiou a sugestão de Asma com a faceirice de quem simula acreditar que segurança não é problema do governo. “Não vamos tapar o sol com a peneira”, declamou, “afirmando que não existem torturas e assassinatos no país”. E o que tem feito o governo Lula para combater o problema? Tanto quanto fizeram nesse campo os governos de Fernando Henrique: pouco mais que nada.

Disso discorda o secretário nacional de Direitos Humanos, Nilmário Miranda. Ele jura que existe – e funcionando muito bem – um programa de proteção a testemunhas eficaz e abrangente. Mas tais programas requerem muita discrição, e o de Nilmário configura um mistério profundo para o resto do Brasil. Coisa de matar de inveja um veterano policial de Los Angeles. Só cai na mão de bandido gente que, por insondáveis motivos, recusa o ingresso no programa. Teria sido esse, garante Nilmário, o caso do baiano Gerson Jesus Bispo.

O episódio deixou bastante excitado o secretário de Direitos Humanos, talvez por ter tido como palco um Estado governado pelo PFL. Nilmário agora acha que o combate a grupos de extermínio deve ser liderado pela administração estadual. Não pensava assim quando o presidente se chamava Fernando Henrique Cardoso. O ponto-de-vista mudou com a mudança no guichê.

O governador petista do Acre, Jorge Viana, deve a sobrevivência física à proteção permanentemente recebida de policiais designados pelo poder central. Ao eleger-se, Viana esboçou a ofensiva prometida em comícios contra matadores fardados. Logo estava refugiado no palácio, emitindo pedidos de socorro a Brasília. Nilmário então achava que o problema era federal. Hoje, é coisa a ser resolvida pelo governador baiano Paulo Souto.

Conhecer o Brasil é complicado até para nativos dispostos a consumir a vida nesse esforço. Para forasteiros, é missão dificílima. Que se torna impossível quando tropeçam em autoridades muito tolas ou espertas demais. Asma só tateou uma das rotas medonhas no pântano.

Essa miopia só afeta arrogantes

Presidente da Câmara Federal em meados dos anos 90, Luís Eduardo Magalhães, eleito pelo PFL da Bahia, formulava a mesma pergunta, antes de votações mais relevantes, ao cruzar com o deputado fluminense Fernando Gabeira.

– Como votará a bancada do PV? – perguntava Luís Eduardo.

– Ainda não sei, vamos fazer uma última reunião para deliberar – respondia Gabeira.

O diálogo era sempre travado em tom brincalhão. Chefe do Poder Legislativo, estrela da maioria governista, Luís Eduardo se habituara a lidar com bancadas numerosas, eventualmente rebeladas, no esforço para aprovar as reformas reivindicadas pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. O Partido Verde tinha um único deputado federal: Fernando Gabeira. Ele era a bancada inteira do PV, e por isso vivia alvejado pelo humor do colega baiano. Mas o presidente da Câmara sempre soube com quem lidava.

– É uma das figuras mais inteligentes, criativas, agradáveis e talentosas que conheço – reiterava Luís Eduardo. – O Gabeira sabe ouvir com atenção e refletir sobre o que acabou de ouvir, coisa muito rara no Brasil. Mas decide sempre com independência, porque tem luz própria.

Luís Eduardo, cujas idéias nunca pareceram muito afinadas com as de Gabeira, via com clareza o que o governo não viu. Não se trata de cegueira. É um tipo de miopia que só afeta arrogantes.


Para provar que o Brasil está melhor depois da vitória do companheiro Lula, João Ferrador tem invocado argumentos surpreendentes. Descobriu, por exemplo, que os índios hoje usam bons modos no convívio com caraíbas. Em 1987, xavantes ficaram tão irritados com o presidente da Funai, Romero Jucá, que ameaçaram usar a borduna para afastá-lo do gabinete. Hoje, o senador virou petista desde criancinha. E mesmo o cacique Aritana, antes tão brigão, aprendeu a agir com suavidade, como mostrou na homenagem à rainha Sofia, da Espanha.

Uma combinação de calça e verba

O Itamaraty anda devendo dinheiro a meio mundo. Até despesas feitas pela comitiva do presidente Lula na recente viagem ao Paraguai atormentam credores em Assunção. Na visita à Espanha, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, defendeu a adoção de trajes informais por autoridades nativas. Achou muito natural que, no jantar oferecido pela família real, o terno de Lula convivesse com a casaca de Juan Carlos.

A coluna fica à vontade, assim, para sugerir aos diplomatas brasileiros que adotem a criativa versão do traje “passeio completo” (como exigia o convite) exibida pelo ator Paulo Vilhena na festa de lançamento da novela Celebridades. A montagem atesta que a inovação combina com o clima do país. Combina sobretudo com o orçamento do Itamaraty.

Gavetas da Memória

O anjo exterminador

Meu irmão mais velho usava calças curtas quando resolveu aventurar-se pelo mundo das armas químicas. Decidiu começar pela invenção de um produto que liquidasse de vez todas as formigas do quintal. Depois de incursões a armários supostamente fora do alcance de moleques, Flávio juntou numa panela os ingredientes recolhidos. Da mistura resultou um líquido de cor avermelhada e cheiro de hospital, suficiente para encher três vidros de remédio de tamanho médio. Não teve paciência para esperar pelo reconhecimento alheio: antes do primeiro teste, batizou a invenção de Flaviatol.

Algumas gotas despejadas sobre dois formigueiros comprovaram-lhe a eficiência mortífera. Graúdas ou miudinhas, amarelas ou escuras, mesmo as temíveis cabeçudas, saúvas de quaisquer subespécies – nada resistiu à passagem do anjo exterminador. A embriaguez do sucesso e o estímulo dos amigos o animaram a conceber armas químicas ainda mais terríveis. E tratou de vasculhar, com método e rigor, armários decididamente proibidos.

Driblada a vigilância dos adultos, localizou poções que prometiam, pela coloração e pelo odor, conseqüências devastadoras. Juntou-as ao conteúdo do Flaviatol e, num reincidente espasmo de auto-estima, deu ao invento de aspecto suspeitíssimo o nome de Flaviatox. As trapaças do destino abortaram a decolagem para o bombardeio quando o inventor precoce já taxiava nas pistas do quintal, sobraçando o único vidro de Flaviatox que conseguira produzir.

A relíquia escorregou-lhe entre os dedos úmidos, colidiu com o chão de cimento e explodiu. Espalharam-se estilhaços de vidro e gotas da misteriosa substância. Algumas respingaram no rosto de Flávio. Não foram muitas. Mas os estragos bastaram para demonstrar que, por muito pouco, as formigas do quintal não conheceram a sua Hiroshima.

Alertada pelo estrondo, dona Biloca interceptou o primogênito a caminho do banheiro. Ele queria conferir no espelho as escoriações generalizadas. Ninguém testemunhou o enérgico interrogatório a que Flávio foi submetido, nem a metodologia utilizada para a obtenção de respostas. O certo é que a confissão revelou com clareza as dimensões perturbadoras das experiências em curso. Desde aquele antigo verão, Flávio Nunes parou de saquear armários, deixou insetos em paz e tratou de dedicar-se a atividades nada explosivas. Tocar piano, por exemplo.

O mundo perdeu um candidato a inventor, a Justiça ganhou um sereno promotor público. As formigas atingidas pelo Flaviatol talvez discordassem. Mas não houve sobreviventes.


[12/OUT/2003]


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