É provável que os quatro principais candidatos à Presidência da República não tenham tido tempo para acompanhar os lances protagonizados na semana passada pelo mais notório criminoso comum do país, Fernandinho Beira-Mar. Candidatos em campanha vivem ocupados com comícios, passeatas, gravações para o programa eleitoral, trocas de ofensa, apresentações bem decoradas em entidades de classe, avaliações de pesquisas qualitativas e, de vez em quando, debates ao vivo. É uma agenda e tanto. Restam-lhes, com sorte, alguns minutos para uma olhada no que não consta da programação. Recebem resumos de noticiários, insuficientes para reproduzir o impacto de certos momentos especialíssimos.
Merecem esse status as gravações providencialmente divulgadas por José Muiños Piñero, procurador-geral de Justiça. Um dos raros homens de bem efetivamente empenhados no combate ao crime no Rio de Janeiro, e em seus efeitos perversos sobre a vida dos cidadãos, Muiños Piñero decidiu acabar com conversas fiadas e iluminar sem medo porões pavorosos. Acabou por produzir duas agravantes muito bem-vindas. Primeiro, tornou incontestável a existência de um absurdo “Estado paralelo” montado, ao longo dos tempos, por bandidos que não usam disfarces e delinqüentes travestidos de policiais. O procurador-geral também reduziu a frangalhos os projetos para a área de segurança apresentados até agora por todos os candidatos à Presidência.
Dono de vocabulário vasto e refinado, Muiños Piñero recorreu a palavras mais acessíveis aos tímpanos do brasileiro comum para descrever o que sentia: “Parece que estamos enxugando gelo”, comparou. Ele acabara de mostrar o trecho da gravação em que Beira-Mar, depois do claro aviso a seu bando – “Tô preso, mas não tô morto” —, ordena da cela em que habita, por um telefone celular, a execução de três comparsas. O restante das conversas atesta que o marechal das drogas não está exatamente preso em Bangu 1. Ele apenas mora lá. Pelo jeito, não tem do que se queixar.
Cercado de agrados e gentilezas providenciados por policiais corruptos, os bandidos são protegidos 24 horas por dia por gente fardada. Promovem festas, patrocinam noitadas com mulheres que agentes amigos buscam em casa. Antes das inspeções destinadas a capturar armas e celulares guardados nas celas, alguém previne os hóspedes do governo. Todo tipo de droga é livremente comercializada, na cadeia e fora dela, pela empresa administrada por Beira-Mar. As coisas funcionam com bastante eficácia. Na Colômbia, durante um punhado de meses, Fernandinho Beira-Mar fez cursos intensivos com remanescentes dos cartéis da cocaína e com os guerrilheiros das FARC. Voltou ao Brasil mais criativo e mais brutal.
Não se pode precisar o instante em que começou a nascer o "Estado paralelo". Mas sobram evidências de que o tumor cresceu terrivelmente nos governos de Leonel Brizola, Marcelo Alencar e Anthony Garotinho. Expôs-se, com suas dimensões espantosas, com Benedita da Silva no poder. Em todas essas administrações, o governo federal pouco ou nada fez para combater de frente o banditismo cada vez mais audacioso. E os governantes, estimulados por dúzias de ONGs, seguiram produzindo concessões à falácia segundo a qual é preciso primeiro cuidar de disfunções sociais que estariam na raiz da violência. É o caso de providenciar cópias das gravações e encaminha-las aos candidatos. Seria interessante ouvi-los apresentar soluções específicas para o problema de Bangu 1.
Na área de segurança, está claro, desde a semana passada, que todos só ficaram na superfície. Todos enxugaram gelo.
Maluf na linha
Toca o telefone, põe-se o aparelho no ouvido e começa a discurseira: “Aqui é o Paulo Maluf”, avisa o homem do outro lado. (Como se fosse preciso: quem não reconhece aquela voz?) Durante mais de um minuto, pode-se ouvir um resumo do que o candidato a governador já fez por São Paulo (e ficamos sabendo do muito que, eleito, ainda fará). A mensagem gravada vem ecoando – a qualquer hora, num momento qualquer – em todos os endereços da capital paulista providos de linhas telefônicas. Conheço gente que recebeu, num só dia, duas chamadas com a mesma gravação. Um amigo jura ter sido contemplado com três.
Quem gosta de ouvir Maluf deve sentir-se feliz. Os devotos do eterno candidato certamente se consideram honrados com a deferência. A quem não é malufista, nem suficientemente maluco para discutir com gravações, resta recolocar o aparelho no gancho. E deduzir, como reafirmo aqui em nome dos agredidos, que se trata de mais um modo de violação da privacidade, intolerável como os demais. Há nesse atrevimento telefônico, nessa intromissão grosseira, algum tipo de delito. Existem, portanto, responsáveis a identificar e punir.
Maluf mantém em assembléia permanente um numeroso grupo de advogados, cuja tarefa é vigiar todas as telas de TV, rastrear todas as emissoras de rádio e ler com lupa as linhas publicadas sobre o chefe nos jornais e em revistas. Vivem à caça de qualquer referência a Maluf que lhes permita, apoiados em espertezas jurídicas, pleitear na Justiça “direito de resposta”. Neste caso, o doutor data-vênia que estiver me dando o prazer da leitura pode dispensar-se de gastar o dinheiro do patrão em tribunais. A coluna abre voluntariamente espaço para que seja publicada a versão do candidato. Os leitores ficariam bastante gratos se fossem esclarecidas as interrogações seguintes.
De que modo Maluf obteve acesso a números que não constam dos catálogos publicados pela empresa encarregada de administrar a telefonia fixa em São Paulo? Quantos números ausentes das listas oficiais foram obtidos? A que preço? Não seria justo solicitar-se a quem atende à ligação licença para que a gravação possa ser acionada? O candidato acha correto interromper com tais métodos a atividade cotidiana dos cidadãos? Quantos telefonemas desse gênero são feitos por dia? Quanto custa cada um? Maluf gostaria de receber em casa mensagens gravadas de adversários como Geraldo Alckmin e José Genoíno, ou mesmo de aliados semiclandestinos como Antônio Cabrera e seu sotaque de quem esqueceu a linguagem da cidade enquanto tateava o caminho da roça?
Se houver respostas, que venham escritas, por favor. Suplico aos generais da campanha de Maluf, cujas aspirações democraticamente respeito, que me poupem de mais telefonemas.