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Sem ciúmes...


Faço parte de uma turma privilegiada que tem um rio passando na sua própria história. E não estou em má companhia: os rios habitam a poesia e a lembrança de tanta gente boa que navega pelos caminhos ardentes desta vida.

Assim, de relance, me lembro do Capibaribe de Bandeira, do Tejo de Fernando Pessoa, do Paraná do Ramos de Thiago de Mello e até de uma escola de samba azul-e-branca que virou rio num canto inesquecível de Paulinho da Viola: Portela! Portela!

Essas lembranças ''fluviais'' me ocorrem neste dezembro, final de um ano em que pude rever as águas cordiais do Rio Acre, o rio da minha vida inteira. Eis que, no retorno, recebo um texto poético de José Augusto Fontes, com sabor de carta-resposta a uma de minhas confissões em que proclamo: ''Este rio é meu!'' Transcrevo, mais adiante, trechos da carta-poema que só não sai na íntegra por questão de espaço.

Veja, caro José, quando uso o pronome ''meu'' não o faço no sentido de propriedade pessoal, exclusivo, estou, apenas, reafirmando os traços de uma identidade que os anos e a distância não apagaram de minha saudade.

Este rio é meu, é o meu Jordão. Na recente viagem que fiz a Rio Branco e a Xapuri, recordei a emoção de meu primeiro mergulho nas águas do Rio Acre. Águas da minha purificação. Minha pia primordial. Em teu doce remanso, inaugurei os fervores essenciais de minha infância. Mil vezes banhei-me no silêncio de tuas alvoradas. Rio meu e o dos meus conterrâneos; dos que nasceram e também dos que não nasceram lá. (Todos sabem que existem apaixonados acreanos de coração, nascidos em outros portos.)

Uma coisa é certa. Os rios correm para todos. Para os que se foram e para os que ficaram.

Na falta de espaço para publicar todo o texto, leiam alguns trechos do ensaio deste acreano ''que ficou'', e por isso mesmo é um verdadeiro herói da revolução diária, em processo, que o Acre vive intensamente.

''O poeta acreano que faz tabelinhas fantásticas com as palavras, que faz poesia com o futebol, durante as comemorações do centenário do Tratado de Petrópolis, disse emocionado, sobre o Rio Acre: 'este rio é meu'. Agora, cheio de ciúmes, digo ao Armando que este rio que ele quer, já tem dono. Este rio é meu. E torço, na marca do pênalti, para que o Armando não o conquiste de longe. Conhecendo este rio, sinto que ele tem saudades do poeta xapuriense e o quer aqui mais vezes.''

E ele continua: ''Este mesmo rio que encontro em Xapuri, que vejo passear em Brasiléia, que espero crescer em Assis Brasil, me acompanha em Rio Branco, anda junto com minha vida, que também finge passar mas não sai daqui. Este rio é meu, da minha infância, da adolescência e desta madura juventude seguinte em que me encontro.''

''Do calçadão, vejo meu rio, outra tarde começa a sumir em suas águas, o sol afundou num grande salão. Água não tem cabelos. Afogou-se a tarde, a água ficou prateada na flor, cheia de uma lua que só aqui existe. Devo estar emocionado, quem sabe, vou encontrar a poesia do rio, a poesia de quem freqüenta seu entardecer, de quem conhece suas artimanhas e remansos, de quem corre em sua correnteza com os dias da própria existência, de quem espera anoitecer nesta floresta, nesta terra de muitas águas, de fartas águas para muitas sedes, inclusive a minha, que quer tomar todo este rio, que tem ciúmes de suas curvas se esticando para roçar a areia das praias.''

''Deste rio, mata-lhe a sede a poesia de quem lhe bebe as águas com sempre mais vontade. A poesia que o emoldura é a de quem pisa o barro de seus barrancos, a areia de suas margens, com cuidado nas arraias.''

''A poesia deste rio pode estar na sombra da samaúma refletida em suas águas, na longa castanheira em seus arredores. A poesia deste rio é misteriosa e agradável como as águas que o separam das margens, que só se encontram no prazer de atravessá-lo, desde o tempo das catraias, de nadar em suas águas quando menino, de olhá-lo com o carinho de adulto. É uma poesia para gastar e renovar, penetrante, como as águas que passam enquanto o rio fica, como ficamos nós, neste leito de amor com ele, para bem adiante da poesia.''


[31/DEZ/2003]


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