Dia de muitos jogos na televisão, eu fico, o tempo todo, pulando, de galho em galho. Se a coisa estiver igualmente chata, troco de canal, outra vez. Três minutos, cinco minutos: se começar a me dar sono, aperto, de novo, o botãozinho mágico. Como estou sempre sozinho - minha poltrona e eu -, não há contestações. As decisões são sempre tomadas por unanimidade...
Só não tem pula-pula quando é o Cruzeiro que está jogando. Aí, eu chego a esquecer que existe controle remoto. Ainda quarta-feira passada, foi assim. Botei lá e de lá não saí, a não ser no intervalo pra dar uma olhada nos melhores momentos dos outros jogos.
Sei que os desafetos do Cruzeiro vão dizer que o adversário era o Flamengo e que o Flamengo, como está, não passa de uma reles galinha morta. Pois o melhor da história é que, dessa vez, não foi bem assim. O Flamengo encharcou-se de brio do começo ao fim do jogo. Não aceitou, passivamente, a maior envergadura do Cruzeiro. Foi à luta, revivendo a chama guerreira da brava gente rubro-negra.
Acontece, amigos, que o time do Cruzeiro anda irresistível, imperioso. Imperial. O que não lhe assegura um título de invencibilidade. Afinal, o campeonato só termina quando acaba.
Um doce canalha
Outro dia, um velho amigo, ligado à literatura, estranhava que, sendo o Brasil tantas vezes campeão do mundo, até hoje ninguém tivesse escrito um romance de peso, tendo como personagem um jogador de futebol. Concordei, mas fiz uma ponderação: acho que a grande figura a ser retratada, antes do craque, é o torcedor.
Não existe, no universo do futebol, criatura mais patética que o torcedor. Agora mesmo, acabo de viver uma experiência singular. Fui assistir ao jogo do Botafogo com o Marília, na casa de um dileto amigo, botafoguense desvairado.
Mal começa a partida, meu anfitrião já estava xingando um jogador chamado Daniel. Quanto mais xingado mais pixotadas cometia o pobre do Daniel. De praga em praga, eis que, num lance de área, o Botafogo, que perdia de um a zero, consegue empatar, numa linda cabeçada... de quem ? Do execrado Daniel. Meu amigo não deu uma palavra.
Desígnios do futebol, lá o que seja, o fato é que, mais adiante, já no segundo tempo, o inominável Daniel faz outro gol, igualmente de cabeça e igualmente bonito.
A meu lado, meu anfitrião, com a maior cara-de-pau, me explica que, com ele, a coisa só funciona assim: ele pega um jogador pra cristo, xinga, esbraveja, sabendo, de antemão, que é de sua aparente vítima que virá o gol da vitória. Contrito, chegou a me revelar que, poucas horas do jogo, recebera um sinal do além, avisando que o homem da noite seria o Daniel e ainda me disse que Daniel, em hebraico, quer dizer Deus é meu juiz.
De volta pra casa, vinha eu pensando, com os meus botões: o torcedor de futebol é, antes de tudo, um doce canalha.
Paulicéia bem-aventurada
A mídia paulistana não podia ter sido mais generosa com este marquês de Xapuri. A noite de autógrafos do meu livro A Ginga e o Jogo, na FNAC, segunda-feira, me ''buleversou'', literalmente. Fui entrevistado, ao vivo, pelos seguintes canais: ESPN, Cultura, Bandeirantes. Patrícia Maldonado, bela moça, entrevistou-me pro SportvNews, e Paulo Henrique Amorim abriu um link pra bater um papo comigo, no telejornal que ele apresenta, na TV Record.
Sem falar que, antes, a Rádio Bandeirantes, a CBN, a Rede TV e o Sportv já tinham enchido a minha bola, gratamente.
Pelo menos, pra mim, Paulicéia desvairada, uma ova. Paulicéia bem-aventurada!