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Maratona dolarizada


Começa a inana das Eliminatórias. Serão dois anos e meio de jogos, lá e cá. Dezoito partidas sob o signo das caixas registradoras. O Roberto Carlos anda dizendo que a maratona de jogos é uma exigência do torcedor que não pode passar sem ver jogar a equipe campeã do mundo. É um bom romântico dolarizado.

De saída, o Brasil pega a Colômbia, fora. Parreira já optou pela base da Seleção campeã mundial de 2002. Deve ser a fórmula mais cômoda. Na estréia, a equipe não será integralmente a mesma. Kleberson, avariado, é trocado por Emerson. O time sai perdendo. Ronaldinho Gaúcho, pendurado, dá chance a Alex. Aqui, o peso atômico é o mesmo. Por coerência, o goleiro titular devia ser o palmeirense Marcos. Anda esplêndido. Já os zagueiros, creio, existe coisa melhor que Lúcio e Roque Júnior. O Alex, do Santos, e o Dracena, do Cruzeiro, estão mais próximos da zaga ideal.

Outros nomes a questionar: Rivaldo, Emerson, Zé Roberto. O primeiro, titular indiscutivelmente na Copa, terá que provar, no campo, que tem sido injustiçado no Milan. Agora, mesmo, na abertura do Campeonato Italiano, Rivaldo esquentou no banco o lugar que supostamente seria de Kaká, que lá chegou, deu bom-dia e já entrou no time, dando um lençol de enciclopédia. Enfim, de um solista como Rivaldo, a gente deve falar, sempre, com o máximo de respeito. Uma palavra pode ressuscitá-lo: motivação.

Emerson é volante como Dunga e como Dunga provém do futebol gaúcho. Meus amigos (e meus prováveis desafetos) costumam dizer que não gosto dos gaúchos. Uma renomada tolice. Morro de inveja da prosódia gaúcha: a entonação da voz, o balanço da frase, a segunda pessoa do singular, conjugando o verbo sem o S final. Dou minha gula por um carneiro-mamão. Aí está o Jayme Sirotski que não me deixa mentir. E os Veríssimos? E o Quintana? E o Ruy Carlos Osterman?

Se eu não fosse acreano, gostaria de ter nascido no Rio Grande do Sul. No mínimo, por gratidão. Foi o gaúcho Plácido de Castro que comandou a revolução acreana contra a Bolívia. Devo a Plácido a minha cidadania brasileira. Me amarro no canto nostálgico dos pampas. Não gosto de tomar chimarrão, mas aprecio o ritual do chá. Cachimbo da paz.

Foi um gaúcho fala mansa que me ensinou a penar, cantando os meus calvários amorosos. Ah, Lupicínio! Ela ''há de rolar como as pedras que rolam na estrada, sem ter nunca um cantinho de seu para poder descansar''. Um dos meus ídolos no Botafogo, campeão de 48, foi o volante Ávila; mais que Ávila, Falcão, aristocrata do jogo.

Lamento muito, mas o Emerson não sabe jogar a bola emérita dos meus volantes prediletos. Gilberto Silva sabe um pouquinho. O Renato também está começando a saber. Aliás, o Sérgio Augusto divide os armadores do jogo em duas categorias: os que não sabem a cor da grama porque jogam sem precisar olhar pro chão e os outros, que jogam de olho na grama, pra não perder a bola de vista.

Enfim Parreira repete Felipão, que repetia Zagallo. Os três que me desculpem, mas divergimos. Pra ficar na boa e sempre louvada semântica: eles acham que Emerson faz falta ao time e eu acho que Emerson não faz falta nenhuma porque faz falta demais.

Amigos, pelo andar da diligência, passarei dois anos e meio purgando meus pecados.

Rápidas e rasteiras

  • O prefeito Cesar Maia, em encontro com Bernie Ecclestone, tirou uma caneta do bolso e mandou ver: ''Pode dizer quanto quer pra levar a Fórmula 1 pro Rio, num contrato de cinco anos?'' Ecclestone pediu tempo.

  • Bons ventos no estúdio em que o Sportv grava o Papo com Armando Nogueira: todos os atletas que passaram pelo programa, antes do Pan, foram lá e fisgaram medalha. Juliana Maggi, minha parceira de bancada, já ouviu de uma cartomante que o Papo é pé-quente.

  • Agradeço ao bom Maneco a surpresa que me fez, elegendo meu livro A ginga e o jogo assunto da novela Mulheres Apaixonadas.

  • Maturana, treinador da Colômbia: ''O jogo de hoje, contra o Brasil, é o mais importante da minha vida.''

  • Há dias cruzei com o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, num restaurante do Rio. Ele me alvejou com um olhar de ira. Por incrível coincidência, na mesa ao lado, estava uma querida amiga, chamada Ira. Incontinenti, filosofei: que seria da vida sem a relatividade das coisas...?


  • [07/SET/2003]


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