Não foi apenas nos estádios que o futebol nos deu muita alegria neste ano de 2002. Se no Campeonato Brasileiro pudemos ver excelentes jogos e reencontramos o futebol arte, o torcedor-leitor também foi contemplado, sobretudo neste último semestre, com novos livros sobre o futebol, essa fonte inesgotável para o texto do repórter, do cronista e do pesquisador.
Depois de ter esmiuçado a vida de Nélson Rodrigues, de Garrincha, da bossa-nova e da carioquíssima Ipanema, o escritor Ruy Castro veste a camisa de torcedor e narra a história daquele que é e sempre será a sua mais antiga paixão: o Flamengo. Em O vermelho e o negro, pequena grande história do Flamengo, Ruy colore com as tintas de um eterno amante a trajetória do clube da Gávea. Transcrevo abaixo momentos de uma deliciosa entrevista, exibida pelo Programa Armando Nogueira, do Sportv, onde Ruy falou sobre a mística da ''camisa que joga sozinha'', como dizia o saudoso Mário Filho.
- Por que o Flamengo é um fator de integração nacional?
- Porque, desde a sua fundação, o Flamengo começou a ocupar o território. O Flamengo é anterior ao correio aéreo brasileiro, ao avião, até ao automóvel. O Flamengo é do tempo em que se amarrava cachorro com linguiça... Foi fundado em 1895 como clube de regatas, está entrando no seu terceiro século de existência.
- Numa história saborosa, você conta que o Flamengo surgiu um pouco do ciúme que a rapaziada do remo do Botafogo provocava.
- Rapaziada que remava na Praia do Flamengo. A gente tem que se transportar pro Brasil daquela época, fim do século XIX. O Brasil era quase pré-tuberculoso. O brasileiro era branco, magro, meio de costas pro mar. Todo mundo se sentia meio discípulo de Olavo Bilac. Em contraste com isso, tinha uma elite de rapazes fortes e bonitos do remo do Botafogo... A rapaziada do Flamengo resolveu criar então um clube de regatas na praia. Naturalmente, eles não sabiam remar, só tinham boas intenções. Como digo no livro, eu gostaria de contar que o Flamengo assim que botou seus primeiros barcos no mar já saiu ganhando de todo mundo. Porém, na verdade, passou os dois, três primeiros anos incapaz de ganhar até de uma banheira à deriva. Mas quanto mais perdia, mais era adorado pela população do Flamengo.
- O Flamengo não era o maior bairro?
- Não, era um bairro aristocrático, charmoso.
- Então, o Flamengo nasce como uma marca de elite e se transforma mais tarde na maior força da paixão popular no Brasil.
- Porque apesar de o remo ser praticado por alguns atletas, o esporte atraía a cidade inteira.
- Como nasce o futebol no Flamengo. É de uma costela do Fluminense?
- Não. O Flamengo já existia como clube de regatas quando o Fluminense foi fundado, em 1902, como clube de futebol. O presidente do Flamengo assinou a ata de fundação do clube. Em 1911, no fim do Carioca - que o tricolor venceu invicto - após uma rixa entre jogadores e a diretoria, os jogadores abandonaram o clube e fundaram o time de futebol no Flamengo.
- A torcida do Barcelona é uma brincadeira perto da torcida flamenguista.
- A torcida do Flamengo é do tamanho da população da Espanha! Por isso é que essa nação precisa ser respeitada, não só pelos jogadores como pelos dirigentes. Muitas vezes, os dirigentes não sabem o que é o Flamengo. Se soubessem não fariam o que fazem.
Colaborou Andréa Escobar