Ôoo, Zé...

[05/JUL/2005]

Ôoo, Zé. Cada vez que ouço o Roberto Jefferson, com aquele vozeirão empostado, o olhão roxo-batata, aquele topetão de galã da Pelmex, mirar a câmera (e, sempre, os membros da Câmara) e soltar, naquela intimidade, ôoo, Zé, tremo nas bases.

Começou com o Dirceu: ''Ôoo, Zé, sai daí, se não vai acabar sobrando para o presidente Lula...''; ''ôoo, Zé, você sabia do mensalão, eu te contei naquele dia, no gabinete...''; ''ôoo, Zé, você conhece o carequinha, não se faça de desentendido...''

Nos últimos dias, sobrou pro Zé Genoíno, aquele mesmo que todos os brasileiros se acostumaram a ver como reserva moral do país, guerrilheiro cheio de peito nos tempos do Araguaia, e que agora aparece tentando colar os cacos, mas, cá pra nós, não há Superbonder que dê jeito.

Ôoo, Zé, agora digo eu pro Genoíno, a turma conseguiu estilhaçar o que ainda havia de credibilidade, de boa vontade, de torcida por um grupo político que prometia botar o Brasil nos trilhos da dignidade, da seriedade, da decência, da probidade, da ética.

Ôoo, Zé ou Zés, tanto faz, não está mole de aturar esse tsunami de desditas, de denúncias diárias que invadem as casas dos brasileiros como aquela onda violenta e poderosa arrasou a Indonésia e a Tailândia.

Contra as forças da natureza, nada a fazer. Contra a força da desmoralização, tudo a fazer. Duela a quien duela, como declarou em outro tempo, num outro século, em escândalo tão saboreado e tão cobrado pelo PT, o ex-presidente F. Collor - de quebra, aí, atropelando feio a língua espanhola.

Ôoo, Zé. Ôoo, Zé. Estou morrendo de medo de ouvir mais alguma coisa que venha precedida desse vocativo. O medo só não é maior do que imaginar, a reboque daquela oratória retumbante de criminalista, dos risos compartilhados com gregos e troianos na Sessão Coruja da CPI do mensalão, que o povão passe a acreditar que Roberto Jefferson é bom moço, é papa-fina, é do bem, e ainda acabe sentando o ex-gordo no trono que hoje ocupa o presidente Lula.

Ôoo, Zé (s). Isso mete medo. De verdade.


Mais uma vez a ficção se encontra com a realidade.

O Marcos Valério, o homem da mala, reza pela mesma cartilha do Laerte (Humberto Martins, que está ótimo na pele do bandidão que também é um marido apaixonado) , aquele personagem de caráter duvidoso que Glória Perez criou em América. Foi ele quem fez a pobre e analfabeta Mazé (em interpretação marcante de Nívea Maria) assinar uma procuração que lhe deu poderes para se apropriar das terras do peão Tião.

Glória Perez se deu bem. Atirou no que viu e acertou o que não viu. Nem que tivesse bola de cristal, ela poderia imaginar que dias depois os jornais revelariam uma Mazé no interior da Bahia, que vendeu por R$ 500 expressiva extensão de terras ao solerte carequinha.

Que espécie de pessoa é essa que engana uma pobre coitada, desprovida de recursos tanto financeiros quanto intelectuais? Que castigo merece esse homem, Senhor?!


Faço minhas as palavras de meu querido amigo Bernardino de Campos, toda vez que topa com uma sordidez dessa: ''Quando eu morrer e chegar lá em cima para a prometida Comunhão dos Santos, se encontrar essa gentalha, mergulho pra baixo no ato.'' Ôoo, Zé: eu também.


Mas não há de ser nada.

O arraial passou, como tudo passa, Sua Excelência vai embarcar no Air Lula para um tour pela Escócia e isso vai distraí-lo. Nada como aquelas verde paisagens, um kilt e um scotch legítimo para espantar as tristezas.

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