Diante do mar paradisíaco de Ipanema, com o Morro Dois Irmãos ao fundo, dois jovens que se dizem ''irmãos de rua'' surgem de um bueiro. É a foto premiada de Fernando Rabelo, capa do
JB na quinta-feira e já parodiada no traço fino do chargista Ique na sexta.
O recém-lançado DVD de Luiz Melodia, o João Gilberto da moderna música negra do Rio, é maravilhoso. Mas a primeira canção, Cruel, canto malandro no Borel, de Sérgio Sampaio, interpretada por coral de crianças da Rocinha, causa estranhamento.
O pano de fundo é a violência. ''Tudo cruel, tudo sistema, torre de Babel, falso dilema, é uma dor que não esconde o seu papel (São Carlos), Morro do Borel, eu subo e nunca estou no céu. Tudo João, nada na mesa, deu no jornal, mãos na cabeça, um marginal que já não pode mais fugir, vai reagir, menino é bom ficar de olho aí, que tudo é desse mundo, surpresa também. Espinho é bem mais fundo, destino também, o amor está quase mudo, minha voz também. Cruel é isso tudo. Tudo tão mal, tão sem beleza, doce de sal, lágrima presa, o que eles falam não se deve nem ouvir, verbo mentir, menino é bom ficar de olho aí''. Mas as crianças no coro, suprema ingenuidade, cantam essa dor terrível sorrindo: ''Doce de sal, lágrima presa, o que eles falam não se deve nem ouvir...''
Uma vez, com o guitarrista Renato Piau, no Lamas, vejo chegar Luiz Melodia: me levanto e suplico: não deixe de gravar Cruel, do nosso amigo Sérgio. Não sei se animei Melodia. Mas quando eu soube meses depois que ele ia gravá-la, passei a informação para Tárik de Souza, que publicou a letra completa.
Dramática a foto de Paulo Nicolella, 1ª página do JB na sexta-feira, mostrando mulheres tensas e policiais federais subindo o Borel para dar segurança aos peritos que iam examinar o lugar de quatro mortes. Melodia segue cantando, agora com a maravilhosa Luciana Mello: ''Eu não vou pro poço, eu não!''
Voltamos à cultura paradisíaca. O ser humano é um buraco atravessado por uma luz que dá para outro buraco. A consciência de que é um buraco, de que nasce num buraco, que é gerado num buraco, que vai para o buraco, que o jogo é ganhar nos buracos, que atacar é preencher buracos, enfim, que o fim é um tremendo buraco, torna o ser humano capaz de se identificar até com os dois irmãos saindo do bueiro diante do Morro Dois Irmãos.
O sol de põe ao lado sob aplausos e, na escuridão da noite, a luz é um letreiro lido por letrados e iletrados enquanto a vitrine do mapa das estrelas cadencia a própria oscilação ao sabor de nosso êxtase ou de nossa ignorância. A idéia do tempo serve para reflexão do seu significado ao longo do próprio tempo. O homem mede e se adapta ao que mede, torna mais eficiente a comprovação da noção que faz do tempo. Percorremo-lo num bueiro. Sendo subjetivo o sentimento do tempo, tratemos de vivê-lo bem. O que pensar do tempo diante de tanto tempo que passou? Primeiramente que é preciso ter tempo. Mas para sofrer ninguém precisa porque o sofrimento só chega quando é o momento de chegar. Viver bem, portanto, é cultuar o tempo como um precioso diamante efêmero.
José Gonçalves Fontes, cheio de prêmios, fugiu de um elogio com essas palavras: jornalista não tem passado, não tem futuro. Vive do presente, e o presente pode ser o buraco na rua.
Toda segunda-feira é uma declaração de amor ao Rio. Em 1973, nos Pilotis da PUC, disse a colegas: ''Tá vendo aquele cabeludo ali? Vai ser muito importante para a história das artes... Vai, irmão...''